segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Noite das bruxas.

Ainda que Mal

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.


Carlos Drummond de Andrade



[Celebram-se hoje 109 anos do nascimento de Carlos Drummond de Andrade. Celebrar-se-ão sempre, porque as almas maiores nunca morrem, apenas deixam de estar presentes, mantendo-se vivas em cada um de nós através das suas palavras.]

Desejos.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O que Me Dói não É

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.


Fernando Pessoa, Cancioneiro

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Escapar.

Foi num arraial, irá em quatro ou cinco anos, e quando presenciei a cena disse comigo que o sinal era mau. Delgadinha, bonita, radiante como uma rapariga pode ser aos vinte, fazia um lindo par com o moço que a prendia nos braços, ambos tão apaixonados no ritmo que os outros tinham deixado de dançar e ficaram a ver.
O espectáculo valia a pena. Houve bis e mais bis, alguém disse que um conjunto assim e um par daqueles, parecia mesmo o filme do Travolta.
Rapaz pesadão e mole, o marido sorria com ternura, na sua ingenuidade de apaixonado não tinha olhos para o erotismo do par, o langor com que a mulher ora se abandonava ao outro, ora o incendiava com requebros, peito contra peito, os lábios quase a tocar-se, os olhos num ardor, as pernas entrelaçadas, os corpos em labareda.
Não assisti ao fim e recordo que me fui dali com o vago sentimento de que tinha presenciado algo mais que um jovem par entusiasmado na dança. O tempo, felizmente, parecia ter-me contradito, e quando meses atrás nos encontrámos no supermercado – conheço-a de miúda – tive de sorrir da vivacidade com que falou do trabalho na cooperativa, dos dois meninos que gerou, de como ainda um dia há-de fazer uma grande viagem por aí fora, ver mundo, escapar…
- Escapar a quê? – quis eu saber.
- A isto! Esta morte lenta!
Vi-a afastar-se, delgadinha, bonita, nada mudada desde a noite do arraial. Deu-me até a ideia de que a rodeava uma aura quando se voltou a acenar um adeusinho.
Disseram-me ontem que escapou. Ninguém sabe com quem, nem para onde, mas o que mais estranham é que tenha abandonado os filhos e levado o cão.

J. Rentes de Carvalho, aqui.

Legenda.


A escuridão dos dias.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Amor
















o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

José Luís Peixoto, A Casa, A Escuridão

Alergias.

 
imagem vista aqui.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A banda sonora da minha noite...



Sei quem ele é
Ele é bom rapaz
Um pouco tímido até
Vivia no sonho de encontrar o amor
Pois seu coração pedia mais,
Mais calor

Ela apareceu
E a beleza dela
Desde logo o prendeu
Gostam um do outro e agora ele diz
Que alcançou na vida o maior bem,
É feliz.
Só pensa nela
A toda a hora
Sonha com ela
P´la noite fora
Chora por ela
Se ela não vem
Só fala nela
Cada momento
Vive com ela
No pensamento
Ele sem ela
Não é ninguém.

Letra e música: Carlos Canelhas

[Porque hoje esta Senhora faz 72 anos.]

Eu não.

Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum.

Ruy Belo


Porque o tempo é aquilo que fazemos dele.



Nunca tive macs, nem ipods, nem o hábito de ouvir música no itunes ou em qualquer dessas plataformas online que nos ajudam a chegar a milhares de bandas a um ritmo, para mim, demasiado alucinante. Não tenho ipad e duvido que venha a ter. Continuo com o mesmo interesse por tecnologia que tenho pela observação de aves, pelo debate répública/monarquia ou pelas eleições da Madeira. Tenho um computador que faz o básico para eu trabalhar. Continuo a comprar cd's e vinis e a ouvi-los nos aparelhos cá de casa. Gosto de ler jornais e revistas em papel, mas agora que penso nisso, são cada vez menos os que leio. Talvez por haver às centenas. Era incapaz de ler um livro num kindle ou noutro aparelho tecnológico qualquer desses que alguns juram a pés juntos "mudam as nossas vidas". Gosto de ter tempo. Gosto de dispor do meu tempo. De o usar à minha maneira. Sem ser refém de nada nem de ninguém. Deve ser por isto que nunca tive facebook.

Bernardo Pires de Lima, aqui.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A vida como moeda de troca

Pode uma vida ser trocada por outra(s)? Quanto vale MESMO uma vida? Se nos Estados Unidos da América (EUA), o lema é "não negociar" – seja com terroristas, seja nas prisões de alta segurança –, na Europa as gravatas da diplomacia entram primeiro em cena do que as armas.

Porém, no vulcão activo que é o Médio Oriente, nem sempre um mais um é igual a dois. Como se comprova facilmente através da libertação do soldado israelita Gilad Shalit, feito prisioneiro durante 1940 dias pelo Hamas. Telavive exigiu a liberdade de Shalit ao Hamas, mas teve de negociar. Exactamente: a troca por 1207 palestinianos detidos por Israel.

Desta vez, houve festejos de ambos os lados do muro (físico, religioso, cultural e político) que separa, naquela nesga de mundo, os dois povos. Israelitas e palestinianos, à sua maneira, saíram à rua para celebrar a liberdade.

Ainda sem saber o desfecho concreto deste episódio, Barack Obama, presidente dos EUA, afirmou que "a paz no Médio Oriente não se faz com resoluções da ONU". Estas palavras foram ditas precisamente a propósito do conflito israelo-palestiniano, na abertura dos trabalhos daquele organismo internacional.

Obama está coberto de razão. É urgente tomar medidas concretas que evitem o chamado "efeito borboleta", em que a perturbação interna num país afecta o planeta.

A violência à escala global a que assistimos diariamente é, nem mais, nem menos, o fruto do verdadeiro choque de civilizações gravado em alto-relevo nas páginas da História. É o resultado da já velha "guerra" entre o Ocidente liberal e o Islão radical. Para estes últimos, o Ocidente encarna o Diabo. Séculos a fio sob domínio colonial deixaram marcas profundas em inúmeros países da região, transformada, nas décadas mais recentes, em palco de renhidas disputas pelo controlo do mercado do petróleo, que o Ocidente quer abocanhar. E é sempre mais fácil dividir para reinar (no caso, fomentar guerras) do que respeitar as diferenças sociais, políticas e culturais. Obama disse, e bem, que os conflitos só se resolvem quando "uns se colocarem no lugar dos outros" para se respeitarem.

Esgotado o modelo de liberalização (cega) à escala mundial e com as abissais diferenças de condições de vida entre "uns e outros", entra em cena o apego à religião, facilmente transformado em fanatismo.

Será o século XXI marcado pelas clivagens geradas pelas religiões? Certezas não há, mas arrisco dizer que os principais conflitos serão alimentados pelo fanatismo e pela intolerância. As acções de muitos movimentos radicais, sobretudo islâmicos, giram em torno da religião. Mas é errado culpabilizar apenas um dos lados. A instrumentalização da fé existe no seio das sociedades islâmicas e também existe nas sociedades ditas liberais e democráticas.

A História diz-nos que os Direitos Humanos são um "invento" da Europa do século XVII, na qual o homem passa a estar voltado para si mesmo, para os seus direitos, liberdades e garantias. Valores que continuam a fazer todo o sentido – cada vez mais sentido – no Ocidente. Já no mundo islâmico, pelo contrário, é a pertença a uma comunidade e o sentido da honra a atingirem a primazia sobre o indivíduo. Diferenças que são causadoras de enormes fracturas sociais, políticas e culturais, até agora por sanar.

O respeito mútuo é, lamentavelmente, uma carta fora do baralho. Mas nada disto é culpa da religião islâmica ou do mundo árabe. É, tão-somente, decorrente da existência de grupos radicais e extremistas, que não olham a meios para atingirem os fins. Daí que se torne imperioso fazer essa destrinça, cabendo a todos, de parte a parte, reconhecer a necessidade de respeitar, como iguais, quem pensa, age e vive de maneira diferente. Por muito que custe.

Publicado hoje, aqui.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Ponto final.


Khadafi foi capturado hoje ferido e, segundo os meios de comunicação, acabou por morrer na sequência dos ferimentos.
Pessoalmente, preferia vê-lo julgado, condenado e efectivamente preso por todos os crimes cometidos ao longo dos anos.
Não foi assim, paciência.
Que esta morte represente o "ponto final" de uma era e hoje seja o início de uma nova etapa para o povo líbio, o ponto de partida para uma mudança no sentido de um país mais democrático, onde os seus cidadãos tenham direitos inalienáveis e absolutos.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Ditos.

Audrey Hepburn e Sean Connery, Robin and Marian, 1976

I love you. More than all you know. I love you more than children. More than fields I've planted with my hands. I love you more than morning prayers or peace or food to eat. I love you more than sunlight, more than flesh or joy, or one more day. I love you... more than God. [Marian] 

Dia do Médico.

Dr. Gregory House (Hugh Laurie)
Pode não ser de verdade, mas é um dos meus médicos favoritos.
E eu tenho vários.

Sol de Outono.

imagem daqui.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dia Internacional para a Irradicação da Pobreza.

Estas verdades

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas.
E antes de ditas pensadas.
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias
Na negação oposta de afirmarem qualquer cousa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim.

Alberto Caeiro


Amina Mia

imagem de Ewa Brzozowska
Anima mina
chiudi gli occhi
piano piano
e come s'affonda nell'acqua
immergiti nel sonno
nuda e vestita di bianco
il più bello dei sogni
ti accoglierà.

Anima mia
chiudi gli occhi
piano piano
abbandonati come nell'arco delle mie braccia
nel tuo sonno non dimenticarmi
chiudi gli occhi pian piano
i tuoi occhi marroni
dove brucia una fiamma verde
anima mia.


Hikmet

Sem escolha.


 E assim se descobre a fibra de que somos feitos.

domingo, 16 de outubro de 2011

Legenda.



Os despojos do dia.

Mais do que insatisfeitos, sejamos trabalhadores




Este sábado, dia 15 de Outubro, um pouco por todo o mundo, haverá gente em praças, ruas e avenidas de muitas cidades, num protesto mundial pacífico, reclamando por aquilo que apelidam de "verdadeira democracia".

Os movimentos que organizaram esta manifestação mundial entendem que a austeridade não resolve os problemas económicos actuais e consideram que a crise não é apenas económica, mas sobretudo política, nomeadamente no que respeita ao projecto europeu.

Por isso, exigem a substituição do modelo de democracia representativa existente, que dizem estar ultrapassado, e reclamam a democratização da economia, fundada num novo modelo assente em duas premissas: a garantia de acesso incondicional ao rendimento e o livre e efectivo acesso aos direitos sociais e políticos.


Sou dos que acreditam que a apatia e o conformismo não são solução para coisa nenhuma. Sou apologista das reclamações, das manifestações de protesto e das exigências de cumprimento do assumido, desde que tudo se faça sem violência, com urbanidade e respeito pelo outro. Mas tenho para mim que, num momento como o actual, a forma de ultrapassarmos este estado de coisas não passa pela saída para a rua, não envolve gritos de revolta (ainda que justamente a sintamos) nem palavras de ordem contra isto ou aquilo. Nos tempos que correm deve haver, de todos e de cada um, um particular sentido de responsabilidade.

Todos somos parte da solução, todos temos um papel enquanto intervenientes na mudança. Mas, para que cumpramos a nossa parte, temos de ser capazes de olhar para além do nosso umbigo, para além da nossa carteira, para além do nosso círculo de amigos e dos nossos hábitos.

Haverá sacrifícios exigidos a muitos (e, infelizmente, talvez não a todos, como se desejaria). Haverá grandes dificuldades no futuro. Haverá, seguramente (ainda), muito mais a fazer para melhorar o estado da nossa economia, do nosso país e do mundo em que vivemos.

Acredito, porém, que é possível ultrapassarmos isto, desde que o façamos com trabalho árduo e espírito de sacrifício. Mais do que lutadores pacíficos e manifestantes insatisfeitos, sejamos trabalhadores afincados e homens e mulheres modestos e contidos. Porque, apesar de tudo, ainda acredito nas palavras de Winston Churchill: Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.

publicado ontem, aqui.

Leituras.

sábado, 15 de outubro de 2011

Si tú me olvidas

Quiero que sepas
una cosa.

Tú sabes cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.

Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.

Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.

Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.

Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los míos.

Pablo Neruda

Laurence Olivier e Merle Oberon, Wuthering Heights, 1939

Planos.


Comprar uma cafeteira das antigas, deixar que o cheiro do café acabado de subir invada toda a casa e traga à memória as férias na casa da aldeia e os pequenos almoços de pão torrado no fogão e leite acabado de mugir.
Abrir de novo os meus ouvidos àqueles sons peculiares, permitir que se escapem dos meus lábios as letras das músicas que repetíamos em coro e deixar-me levar para um tempo que não volta mais.
O tempo em que ainda te tinhamos ao nosso lado, Avô.

United for Global Change




sexta-feira, 14 de outubro de 2011

De palavra em palavra

De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

Eugénio de Andrade


Café de fim de tarde.

imagem vista no Facebook

Demasiado quente, demasiado amargo, 
com borras e a saber a queimado.
Haverá ainda pior?

What really matters.



It is not the brains that matter most,
but that which guides them — the character,
the heart, generous qualities, progressive ideas.

Fyodor Dostoevsky

Porque hoje é sexta-feira.


Assim seja.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Coração sem Imagens

Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.


Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.


Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.


Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.


Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.


E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho

fim de poema


.....................................................

Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo
os utensílios,
em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.

Sebastião Alba

The worst enemy.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Às vezes

Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.


Sophia de Mello Breyner Andersen


Rotina

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

Definições.


imagem vista aqui.


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles

Fidelidade

...Sei que o Leonel é fiel. Mas não sorrias Luísa. Ele é certamente fiel mas não a ti. Fiel ao filho, certamente. Fiel à hipoteca da casa. Fiel à prestação do carro. Fiel ao seu conformismo, ao seu medo de perder tudo.

É como o elefante do circo – pode a qualquer momento rebentar as correntes, libertar-se, mas tornou-se fiel à mão que o alimenta, até fiel à corrente que o prende. Habituou-se a ela. Já não tem noção da sua força. Já mal imagina que tem capacidade para se libertar e ser livre. Acomodou-se. Apenas se acomodou, Luísa. O Leonel não é um gato domesticado. É um animal bravio – acontece que ele já se esqueceu disso.

Nessa amnésia de uma natureza adormecida, permanece profundamente infiel a si próprio, a destilar negro. Traindo a sua índole e o seu sonho de ser pleno. Mas quando o instinto mais profundo e selvagem se revelar, não vai haver correntes que o segurem – vai partir. E para sempre! Para sempre, Luísa! Vais ver que é para sempre!...

João Morgado, Diário dos Infiéis

Café amargo.



domingo, 9 de outubro de 2011

Nunca o verão se demorara

Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?

Eugénio de Andrade




Resistências.

O Outono,

O outono, o que é para mim o outono?
O outono é a suspeita de que tudo acaba
de que a exaltação do verão é uma ilusão (...)

Ruy Belo

sábado, 8 de outubro de 2011

Noite de cinema.

Peguei no meu coração
E pu-lo na minha mão

Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.

Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;

Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.


Fernando Pessoa (1913)


Lisboa, hoje. Um quarto de uma casa na Rua dos Douradores. Um homem inventa sonhos e estabelece teorias sobre eles. A própria matéria dos sonhos torna-se física, palpável, visível. O próprio texto torna-se matéria na sua sonoridade musical. E, diante dos nossos olhos, essa música sentida nos ouvidos, no cérebro e no coração, espalha-se pela rua onde vive, pela cidade que ele ama acima de tudo e pelo mundo inteiro. Filme desassossegado sobre fragmentos de um livro infinito e armadilhado, de uma fulgurância quase demente mas de genial claridade. O momento solar de criação de Fernando Pessoa. A solidão absoluta e perfeita do EU, sideral e sem remédio. Deus sou eu!, também escreveu Bernardo Soares. 
[sinopse do filme, recolhida aqui.]

De olhos abertos.


Ao falar, hoje de manhã, com o empregado que nos traz de volta as roupas que enviamos para a lavandaria, não senti qualquer diferença, mas nenhuma mesmo, em relação ao que sentiria se tivesse falado, no seu tempo, com Churchill. Trata-se simplesmente do contacto com um ser humano. Há pessoas mais agradáveis do que outras, mas não por razões de classe, nem mesmo de cultura. (...) Nós somos todos parecidos e caminhamos para os mesmos fins.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos.


imagem daqui.

Alone.

imagem daqui

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A banda sonora da minha noite...

Estive sempre sentado...

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.



Eugénio de Andrade

Pausing.



 Um café e um livro, por favor.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O desperdício da vida.


A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.

Carlos Drummond de Andrade