sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

As palavras essenciais.

Quais são as tuas palavras essenciais? As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações. As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem. As que talvez ignores por nunca as teres pensado. As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha.

Vergílio Ferreira

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

sábado, 1 de outubro de 2016

A mão chega.

Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo.
António Lobo Antunes

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Recantiga.

E era as folhas espalhadas, muito recalcadas no correr do ano,
A recolherem uma a uma por entre a caruma de volta ao ramo.
E era à noite a trovoada que encheu na enxurrada aquela poça morta,
De repente, em ricochete, a refazer-se em sete nuvens gota a gota.
E era de repente o rio, num só rodopio, a subir o monte,
E a correr contra a corrente, assim de trás para a frente, a voltar à fonte.
Um monte de cartas espalhadas des-desmoronando-se todo em castelo,
E era linha duma vida sendo recolhida de volta ao novelo.
E era aquelas coisas tontas, as afrontas que eu digo e que me arrependo,
A voltarem para mim, como se assim tivessem remendo.
E era eu, um passarinho caído no ninho à espera do fim,
E eras tu, até que enfim, a voltar para mim...

https://youtu.be/tV9HscpC-RU

Despedidas.

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill, Poesias Completas.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Sei agora

Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade

In Memoriam

E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa é nada me prende.

No dia em que passam 80 anos sobre a sua morte.

(O excerto é do heterónimo Bernardo Soares - Livro do Desassossego, trecho 10, Assírio & Alvim, 1998, p. 53.
O esboço tem o traço inconfundível do Mestre Júlio Pomar.)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O dia em que te deixei.

Gosto de recordar as datas e os momentos felizes. São eles que me enchem o peito, é a sua memória que me alimenta os dias. No que te respeita, gosto de recordar o dia em que nasceste, os dias em que me levavas aos ombros, o dia tão falado até hoje em que me deixaste partir uma dúzia de ovos no chão da cozinha.
Há apenas uma excepção: o dia de hoje. Este dia ficou mais gravado em mim que o dia em que tu nos deixaste. Foi um dia claro aquele, estava sol, muito sol. Muita gente, muitos abraços, muitas flores. Gente demais, abraços demais; só as flores nunca são demais.
Dois dias antes, sem grande surpresa mas com a angústia inerente à inevitabilidade do momento, recebi a notícia de que te tinhas ido embora. Fugiu-me o chão debaixo dos pés. Senti-me perdida, sentimo-nos todos assim, sabes? Era muito cedo, havia ainda tanta coisa a fazer, tanto a dizer, e tu já cá não estavas. Ficou muito por completar: não chegaste a levar-me ao altar, não chegaste a dar a mão ao F., não chegaste a tê-lo nos braços.
A 13 de julho de 2006, precisamente a esta hora, começava o ritual da nossa despedida. Já te disse que estava um lindo dia de sol? E, ainda assim, o céu para mim estava negro, escuro como breu. Foi preciso subir a escada da dor e plantar no infinito a Estrela mais brilhante do universo. Aquela que o F. reconhece e sente como sua protetora. Aquela para a qual eu olho em busca de orientação, de auxílio, de consolo.
E é por isso, Avô, que eu gosto de recordar o dia em que te deixei.

imagem daqui.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Legenda.





O homem é o homem e a sua circunstância.

José Ortega y Gasset

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Contai aos vossos filhos*






Documentário A Noite Cairá [Andre Singer, 2014]. A ver, para que nunca se esqueça.


*O título do post corresponde ao título do livro de Stéphane Bruchfeld sobre o Holocausto [edição portuguesa da Gótica, 2000].


Manhãs submersas

Quando a manhã, supostamente calma e tranquila, se transforma no pior momento do dia. Quando, antes de sair de casa, já desejaste que o dia tivesse acabado. Quando (quase) tudo o que pode correr mal corre mesmo mal. Quando duas horas não são suficientes para fazer tudo o que, regra geral, fazes em quarenta e cinco minutos. Quando às nove da manhã já falaste mais do que vais falar até à hora do almoço. Quando fechas a porta de casa atrás de ti com vontade de não a voltares a abrir tão cedo.

Penelope Cruz in «Vicky Cristina Barcelona» [2008]

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

As minhas manias.

Gosto de guardanapos de pano. 
Gosto de camas feitas de lavado e de lençóis brancos de algodão. 
Gosto de mimos. 
Gosto do cheiro dele. 
Gosto de mantas, mesmo no verão. 
Gosto do cheiro da terra molhada. 
Gosto de chá 365 dias por ano, de manhã, à tarde e à noite. 
Gosto de Liszt. 
Gosto de jantares tardios, com pão, queijo, vinho e uma boa companhia. 
Gosto de lápis bem afiados e de canetas de tinta permanente. 
Gosto de sorrisos abertos e de gargalhadas sonoras. 
Gosto do calor do sol no meu rosto. 
Gosto de manhãs longas à mesa do pequeno-almoço. 
Gosto de sapatos. 
Gosto de sorrisos abertos. 
Gosto da pele do meu filho. 
Gosto de Rembrandt e de Caravaggio. 
Gosto de livros. 
Gosto do meu pescoço. 
Gosto do barulho da chuva a bater na vidraça. 
E há dias em que gosto da vida.


imagem daqui.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

In Memoriam


Out of the night that covers me
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is boody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William Ernest Henley

Até sempre, Madiba.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

In Memoriam

Há pouco, ao ler isto, tive vontade de cá voltar.
Pelas vezes em que os seus poemas me consolaram, pelas vezes em que as suas palavras foram empáticas com os meus sentimentos. Pelas vezes em que o citei, fazendo minhas as suas palavras. Por tudo quanto me deu, e por tudo aquilo que dele fica, depois de tudo, depois da morte.
Obrigada, António Ramos Rosa, pelo que fizeste por mim.
Até sempre, meu amigo.

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.