quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Passa a palavra.

Há momentos de descontinuidade na percepção da realidade. Como a perda de gravidade acima de uma certa altitude ou o silêncio sepulcral quando se passa a velocidade do som. O "enorme aumento de impostos" de ontem parece um desses momentos. O momento em que se pára. O momento em que já nada se percebe. O momento em que as mil perguntas já não atravessam a barreira dos dentes. Pedem-nos tudo, explicam-nos pouco, prometem-nos nada. E nós, vamos à luta?


É uma ironia cruel: Portugal está a vencer a batalha dos mercados no mesmo passo em que perde a batalha do país. Somos louvados, ganhámos um ano, temos as taxas de juro mais baixas desde o início da intervenção externa. E no entanto, estamos sobre um abismo em cima de cordões de sapatos.

O "aumento brutal de impostos" é uma resposta desesperada de um Governo cuja estratégia falhou e que não teve criatividade nem se preparou para outras medidas. Perante a derrapagem do défice, Passos Coelho perdeu o tino e anunciou a medida estupidamente inteligente da taxa social única, que aniquilou a paz política e arruinou a paz social. Agora, o País está na esquina perigosa entre ser sucesso ou fracasso, Irlanda ou Grécia, singrar ou afundar-se na espiral recessiva. Perante o abismo, o Governo abriu a gaveta das possibilidades e tirou tudo de lá de dentro. Tudo. Caça com cão, com gato, com gão e com cato.

Este aumento de impostos é um grito. Não tem lógica, não tem política, não tem justiça, não tem estudos, não tem regras, não tem sequer coerência ideológica. É uma arma que metralha contra uma selva escura. Impostos, impostos, impostos. E é também uma súplica. Aos portugueses. Porque se as hipóteses de salvação são exíguas, elas serão nulas se o país estiver indisponível. Está o País disponível? Vamos "manter a coesão", como pede Vítor Gaspar?

Eis a grande questão. Saber se estamos para isto. Mais que na falta de criatividade nas medidas, mais que na falta de negociação externa, o Governo falha quando propõe um contrato aos portugueses com base numa única premissa: porque o País é deles. Nosso.

O Governo destratou os portugueses quando criou uma tropa de elite para tratar dos mercados e deixou vazia a cadeira da política, onde se fala ao povo. Agora, o Governo precisa do povo. Mas falha-lhe, não lhe dá o que povo exige. Merece. Precisa.

A mobilização do povo exige premissas simples. Exige que além dos aumentos de impostos haja cortes de despesa no funcionamento do Estado - e o Governo está um ano e meio atrasado nisso. Exige equidade nos cortes, mas as medidas contra os lóbis são tíbias e tardias. Sobretudo: exige um propósito, luz no fundo do túnel, exige confiança. Exige verdade.

Não basta tocar o clarim para que os portugueses voltem para dentro do barco de que foram expulsos com a TSU. Não é possível fazer uma convocatória de um povo mantendo-o na insegurança perpétua e na ignorância permanente.

Como se faz a convocatória de um povo mantendo-o desinformado quanto à vida do seu País e de cada uma das vidas que o habitam? Vítor Gaspar fez anúncios negros repletos de espaços em branco. É preciso preencher esses espaços em branco, há dados fundamentais desconhecidos. Quais são os novos escalões de IRS? Quem vai pagar mais e quanto mais? O que é preciso poupar hoje para compensar mais tarde? Acima de que valor um trabalhador da iniciativa privada perde mais do que um salário em 2013? Qual é o máximo que um funcionário público pode perder? E o mínimo que um pensionista pagará? Quanto se vai pagar de IMI? Que valor de salário vai sobejar depois do fim das deduções fiscais? Em Maio de 2014, quando chegar o acerto do IRS, que surpresas haverá? Como podemos acreditar que há equidade sem dados para percebê-lo? Quanto vão pagar as concessionárias de PPP, se é que vão? Qual é a taxa sobre transacções financeiras? Que "grandes lucros" de empresas vão ser tributados? Qual a dimensão da economia paralela? Como será cortada despesa do Estado em quatro mil milhões de euros, como a troika obriga? Vão despedir militares, polícias? Vão cortar prestações sociais, subsídio de desemprego? Quanto? A quem? Não é uma falácia dizer que os portugueses vão ficar melhor em 2013 do que ficariam com a TSU, quando muitos vão ficar pior que em 2012? Como havemos de acreditar que a economia "só" decresce 1% no próximo ano? O que nos garante que não entramos em espiral recessiva? Por que razão a receita fiscal não quebrará no próximo ano se quebrou neste? Quando acaba afinal esta crise? Em 2014? Em 2018? Em dois mil e nunca? Que ambição podemos ter? Que gerações têm esperança? Que legado deixaremos? Sem respostas, os portugueses não sabem sequer quanto dinheiro vão ter daqui a três meses, quanto mais se acreditam no País.

Faltam cortes de despesa. Não há medidas de incentivo ao crescimento. O aumento do IRS é enorme. A julgar pela incidência, é preciso ganhar cada vez menos dinheiro para ter um "rendimento alto" para o fisco. Estamos mais pobres, mas há cada vez mais ricos.

Há um batalhão de gente neste momento a lutar pelo País mesmo que parte dele não saiba fazê-lo. Cada português tem de decidir se acredita nisto. Se desiste, se se rebela. Ou se acredita, tira o sangue das pedras, paga impostos, luta pela sua vida e pela dos outros. Sim, é uma decisão cada vez mais individual. Porque está a tornar-se uma decisão de fé. Para ocupar com palavras os milhões de espaços em branco.

Pedro Santos Guerreiro, aqui.

sábado, 29 de setembro de 2012

Programa da noite.


5 anos.

Tarde de mimo.



Encosta-te a mim,
nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim,
talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim,
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.
Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim,
desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada, porque arrasei o que não quis
em nome da estrada, onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo o que não vivi,
um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A banda sonora da minha noite.


Olha lá
Já se passaram alguns anos
Nem sequer vinhas nos meus planos
Saíste-me a sorte grande

E eu cá vou
Gozando os louros deste achado 
Contigo de braço dado para todo o lado 

Eu vou até morrer ser teu se me quiseres
Agarrado a ti vou sem hesitar
E se o chão desabar que nos leve aos dois
Vou agarrado a ti

Meu amor
Na roda da lotaria 
Que é coisa escorregadia
Saíste-me a sorte grande 

E eu cá vou
À minha sorte abandonado
Contigo de braço dado para todo o lado

Eu vou até morrer ser teu se me quiseres 
Agarrado a ti vou sem hesitar
E se o chão desabar que nos leve aos dois
Vou agarrado a ti

E olha lá
Por mais que passem os anos
Por menos que eu faça planos 
Sais-me sempre a sorte grande 

Agarrado a ti vou sem hesitar
E se o chão desabar que nos leve aos dois
Vou agarrado a ti vou sem hesitar 
E se o chão desabar que nos leve aos dois 
Vou agarrado a ti 
Vou agarrado a ti 
Vou agarrado a ti

De partida.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A banda sonora da minha noite.

Balada de Sempre.


Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.



Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...



Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...



Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras!-



Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...


Fernando Namora

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Das maravilhas da maternidade.

Depois do:
- "mipopótamo" (hipopótamo); do
- "ninoceronte" (rinoceronte); do
- "paulinhovalente" (polivalente); do
- "dezazoito" (dezoito); do
- "autobatocarro" (autocarro) e 
de mais umas quantas, a última expressão preciosa do herdeiro é... 
- ginástica "rica" (rítmica)!

Recomeço.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

In Memoriam.


Tu, a quem a vida pouco deu
que deste o nada que foi teu em gestos desmedidos.
Tu, a quem ninguém estendeu a mão
e mendigas o pão dos teus sentidos
Homem só, meu irmão.

Tu que andas em busca da verdade
e só encontras falsidade em cada sentimento
Inventa, inventa amigo uma canção
que dure para além deste momento
Homem só, meu irmão.

Tu, que nesta vida te perdeste
e nunca a mitos te vendeste,
dura solidão!
Faz dessa solidão teu chão sagrado,
agarra bem teu leme ou teu arado,
Homem só, meu irmão.

Luiz Goes

domingo, 16 de setembro de 2012

A banda sonora da minha noite.



Tenho.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Álvaro de Campos, Tabacaria.

O povo saiu à rua num dia assim.

Avenida dos Aliados, Porto, 15 de Setembro de 2012
© Maria de Deus Botelho

Sabes, Avô, hoje fui até à Avenida dos Aliados, no Porto. Fui juntar-me a tantos que, como eu, não quiseram ficar em casa desta vez e preferiram ser parte activa nesta luta por um país mais justo, um país mais solidário. Éramos tantos, Avô… Um mar de gente, de todas as idades. Vi crianças da idade do teu bisneto que não chegaste a conhecer, vi velhos da idade que terias hoje se a vida não te tivesse levado antes do tempo. Cruzei-me com homens e mulheres que podiam ser meus pais, que seguramente sacrificaram tanto para darem aos filhos a educação que muitos deles não tiveram e que, agora, os vêem sair do país em busca de um futuro que, aqui, já não têm.

Estavam lá gerações inteiras, Avô. Pais que levavam os filhos e filhos que levavam os pais. Avós que se apoiavam nos netos e netos que estavam ali também pelos seus Avós. Todos em luta serena e pacífica.

Fomos pacíficos mas não fomos silenciosos. Ouviram-se cânticos, gritaram-se palavras de ordem; bateram-se palmas e lançaram-se assobios; cantou-se o Hino, Avô, A Portuguesa, que sempre te encheu o peito. Empunharam-se cartazes com dizeres mais ou menos criativos. Tudo feito por gente que se recusa a desistir, que renega a resignação, que insiste em lutar.

Hoje, Avô, eu fiz aquilo que me ensinaste toda a vida: ergui bem alto a cabeça e exigi os direitos por que tanto lutaste. Hoje, a minha voz também se fez ouvir, contra o exagero, contra o sacrifício desmesurado, contra o retrocesso. Hoje, fui verdadeiramente tua neta: um soldado na luta incessante por um futuro melhor, mais digno, mais verdadeiro.

Foi o começo, Avô. Será preciso muito mais, será necessário ser muito melhor. Mas hoje, Avô, eu fiz aquilo com que sonhei tantas vezes: eu comecei mesmo a mudar o mundo.

Se cá estivesses, provavelmente ter-me-ias pedido cautela; assim, vieste comigo e a tua voz foi a minha voz, a tua força foi a minha força. Foi quando te senti em mim que me lembrei do cântico que tantas vezes cantámos no jardim da casa da aldeia: “…o povo é quem mais ordena…”. Também se cantou, Avô. Bem alto, como deve ser. O povo saiu à rua. E fez-se ouvir.

Ainda ontem, no P3.

[À memória do meu Avô materno, José Francisco Botelho, que também fez de mim aquilo que eu sou hoje.]


sábado, 15 de setembro de 2012

O programa da tarde.


Que sopre o vento.


A banda sonora do nosso dia.


Tiveste gente de muita coragem 
E acreditaste na tua mensagem 
Foste ganhando terreno 
E foste perdendo a memória

Já tinhas meio mundo na mão 
Quiseste impor a tua religião 
E acabaste por perder a liberdade 
A caminho da glória

Ai, Portugal, Portugal 
De que é que tu estás à espera? 
Tens um pé numa galera 
E outro no fundo do mar 
Ai, Portugal, Portugal 
Enquanto ficares à espera 
Ninguém te pode ajudar

Tiveste muita carta para bater 
Quem joga deve aprender a perder 
Que a sorte nunca vem só 
Quando bate à nossa porta

Esbanjaste muita vida nas apostas 
E agora trazes o desgosto às costas 
Não se pode estar direito 
Quando se tem a espinha torta

Ai, Portugal, Portugal 
De que é que tu estás à espera? 
Tens um pé numa galera 
E outro no fundo do mar 
Ai, Portugal, Portugal 
Enquanto ficares à espera 
Ninguém te pode ajudar

Fizeste cegos de quem olhos tinha 
Quiseste pôr toda a gente na linha 
Trocaste a alma e o coração 
Pela ponta das tuas lanças

Difamaste quem verdades dizia 
Confundiste amor com pornografia 
E depois perdeste o gosto 
De brincar com as tuas crianças

Ai, Portugal, Portugal 
De que é que tu estás à espera? 
Tens um pé numa galera 
E outro no fundo do mar 
Ai, Portugal, Portugal 
Enquanto ficares à espera 
Ninguém te pode ajudar

Ai, Portugal, Portugal 
De que é que tu estás à espera? 
Tens um pé numa galera 
E outro no fundo do mar 
Ai, Portugal, Portugal 
Enquanto ficares à espera 
Ninguém te pode ajudar

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A banda sonora da minha noite.

«Sábado começo a mudar o mundo.»

Há pouco menos de um ano (por ocasião das manifestações de 15 de Outubro de 2011), acreditava (e disse-o aqui) que, num momento como o que então vivíamos, a forma de ultrapassarmos as dificuldades não passava pela saída para a rua, não envolvia gritos de revolta (ainda que justamente a sentíssemos) nem palavras de ordem contra isto ou aquilo; naqueles tempos, considerava eu dever haver, de todos e de cada um de nós, um particular sentido de responsabilidade.

Passou quase um ano. Nesse entretanto, as nossas vidas foram verdadeiramente retalhadas. Baixaram-se salários, cortaram-se subsídios (que, em abono da verdade, eram componente da remuneração); aumentaram os impostos, a electricidade e os bens de primeira necessidade. Os combustíveis dispararam para preços absolutamente proibitivos.

As consequências destas medidas – consideradas necessárias e, apesar de tudo, relativamente aceites pelos portugueses – foram e são brutais: milhares de pessoas deixaram de poder pagar as suas casas ao Banco e ficaram sem um tecto onde viver; muito do tecido empresarial deste país parou de funcionar, apresentou-se à insolvência e deixou no desemprego todos os seus trabalhadores; inúmeras famílias deixaram de ter um espaço a que pudessem chamar seu e passaram a dividir a casa com os pais, os tios e os avós, para cortar nas despesas; o número de desempregados aumentou para valores nunca vistos – são muitos os casais que, hoje, não sabem como alimentar os seus filhos. A estabilidade profissional não existe. A pobreza, verdadeira, bateu à porta de muitos e está à espreita para outros tantos.

Apesar de tudo, até agora eu ainda via nos olhos dos que comigo se cruzam diariamente a centelha da esperança, a vontade de lutar, o desejo de ultrapassar as dificuldades. Agora, nem isso.

Na sexta-feira passada (7 de Setembro), o país foi confrontado com novas medidas de austeridade, a afectar os “do costume”. Medidas duras, que assentam numa (mais uma) significativa redução do rendimento disponível das pessoas.

Confrontada com a suposta inevitabilidade de tudo isto e com as desconfianças que todos temos em relação ao sucesso desta empreitada, uma pergunta persiste, desde então, em me inquietar: Que país, que futuro, que vida estou eu a construir para o meu filho?

É nele que penso. É a busca incessante daquilo que sonhei para ele (muito mais do que o que sonhei para mim própria) que me move, todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Por isso, por ele mais do que por mim, não posso continuar apática e submissa. Chegou a hora. Li o “post” de Myriam Zaluar  no Facebook, que dizia: “Sábado começo a mudar o mundo”. Eu vou com ela.

A minha crónica de hoje, no P3.

E assim, sem me conhecer, ela fez com que eu me decidisse.

Ontem à noite, o meu filho, antes de se deitar, veio ter comigo e disse-me, com aquele ar gozão que eu conheço tão bem e que ele usa sem se dar conta para atenuar emoções demasiado intensas: "Mãe, estou muito orgulhoso de ti e dos teus amigos marginais que passam a vida a tentar mudar o país."

E eu, tantas vezes preguiçosa, tantas vezes displicente, eu que tantas vezes tenho vivido abaixo das minhas capacidades, eu, que tantas vezes tenho deixado a cozinha por limpar e o carro por aspirar, que tenho deixado textos para escrever amanhã, que tenho até chegado a pensar que mais vale arrumar as botas, eu verifico que nesta simples frase está tudo. Tudo.

O orgulho do meu filho. Da minha filha. Tudo o que eu quero. Tudo o que eu preciso. É por eles que saio à rua. Por eles continuo a levantar-me todas as manhās para trabalhar de olhos fechados num emprego que detesto e que nada tem a ver comigo. Por eles adio o meu sonho vezes sem conta. Por eles cometo a incoerência de prosseguir alimentando um sistema que abomino e que nos está a destruir, a mim, a eles e a ti que me lês, talvez.

Mas ele tem orgulho em mim, muito, foi o que ele disse. E eu orgulho-me que ele se orgulhe de mim. Que mais pode querer uma māe?

Que mais pode querer? Pode querer muito. Pode querer tudo. Menos que isso é desistir do mundo. É desistir da vida. E eu nāo desisto. Há quem queira, quem tudo faça para que eu desista, mas nāo, eu nāo. Os meus filhos merecem o mundo que eu sonhei. Eu mereço o mundo que sonhei. O que me foi prometido. Eles merecem crescer acreditando que vāo ser felizes, como eu cresci. Acreditando que vāo realizar os seus sonhos, como eu cresci. E para isso bater-me-ei todos os dias da minha vida.

Os meus amigos. O Luis que está na prateleira. O Joāo que foi despedido. O Miguel que queria ser actor e que todos os dias afoga a frustraçāo num mar de cerveja.
As minhas amigas. A Sara que está desempregada. A Rita que se mata a trabalhar. A Inês que queria montar um pequeno negócio. A Mariana que está doente e nāo pode parar para se tratar porque se o fizer nāo terá como dar de comer à filha.
Tanto talento, tanta energia desperdiçados. Tanta gente a viver abaixo, abaixo das suas expectativas, abaixo das suas necessidades, abaixo das promessas com que crescemos. Abaixo.

Marginais. É verdade. Somos marginais. Nāo queremos trabalhar. Nāo queremos trabalhar sem os direitos pelos quais morreram os nossos antepassados. Nāo queremos trabalhar até cairmos de exaustāo. Nāo queremos trabalhar até morrermos de velhos sem termos vivido. Nāo queremos trabalhar em ambientes podres, doentes, doentios, que nos cortam as asas, a criatividade, a motivaçāo. Nāo queremos trabalhar a troco de salários miseráveis, nem a troco de talões de supermercado. Nāo queremos trabalhar 60 horas por semana. Nāo queremos trabalhar para criar a riqueza com que os patrões se banqueteiam à nossa conta enquanto nós contamos os cêntimos. Nāo queremos só comida, queremos comida, diversāo e arte, queremos a imaginaçāo ao poder, queremos o descrescimento. Sim, somos marginais. Somos marginais porque pensamos à margem. Somos marginais porque somos mantidos à margem. Marginais porque as margens nos comprimem. Marginais mas nāo violentos. Apenas queremos mudar o país, disse ele. Mudar o mundo. Mudar.

Mudar. Mudar-nos. Mudar para dentro, mudar para fora. Mudar para melhor, porque para pior já basta assim. Mudar porque é possível. Porque é preciso. Porque é urgente. Porque é devido. Sábado saio à rua. Sábado começo a mudar o país. Sábado começo a mudar o mundo. Sábado reclamo a minha vida. A dos meus filhos. A dos meus pais. A dos meus amigos. A tua. Sábado deixo de ser marginal, deixo de ser margem, torno-me rio. Rio de multidāo lutando com a história na māo. Sábado quero encontrar-te. Vens?

da Myriam Zaluar, aqui.



terça-feira, 11 de setembro de 2012

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Liberdade, igualdade e fraterni… quê?


A história percebe-se melhor se contada na com uma pessoa: Cristina Dimitru passou 18 meses (entre 2005 e 2007) numa caravana em Nantes, sem água nem electricidade, sem acesso à escola ou ao mercado de trabalho, impedida de pedir um visto de trabalho. Persistente, lutou durante esse tempo contra um sistema pouco permeável a conceder uma oportunidade de vida. Em 2007, entrou directamente para o quarto ano de escolaridade, em Junho de 2011 obteve o certificado de aptidão pedagógica. Em Dezembro do mesmo ano, o Governo francês condecorou esta jovem de origem Romani com o título de melhor aluna de França. Em 2010, uma outra aluna com as mesmas raízes étnicas recebeu idêntico galardão.

Dois casos com um final feliz que, vistos isoladamente, dariam a ideia de que a terra dos sonhos existe, afinal, e é em França. Mas se alargarmos um pouco mais o “zoom”, vemos uma realidade bem distinta. Em Outubro de 2010, o Governo de Sarkozy expulsou inúmeras famílias ciganas, a troco de 300 euros, com o argumento de que estavam ilegais. Uma violação do Direito Comunitário, que proíbe perseguições baseadas em motivos religiosos ou étnicos. Nicolas Sarkozy foi duramente atacado pela comunidade internacional e perdeu a “guerra”. Então, a Comissária Europeia para a Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania, Viviane Reding, intimidou a França com punições e declarou: “Eu pensei que a Europa não seria mais testemunha deste tipo de situação depois da Segunda Guerra Mundial.”

imagem vista aqui.

Em Março deste ano, em plena campanha presidencial, François Hollande comprometeu-se a encontrar “soluções de realojamento” para os Roms: “Não podemos continuar a aceitar que famílias sejam perseguidas de um lugar e não haja solução.”

O certo é que uma circular interministerial emitida recentemente determina a aplicação “imediata” do fim das “ocupações ilícitas de terrenos”, ordenando aos governantes locais que “recorram à força pública” se necessário. A circular impõe, apesar disso, que seja assegurado “tratamento igual e digno a todas as pessoas em situação de perigo social”, através de medidas que promovam a inserção dessas mesmas pessoas (escolarização, saúde, emprego, abrigo).

A eleição de Hollande para o cargo de Presidente da República de França, em Maio último, fez com que boa parte da Europa suspirasse de alívio, por muitas razões. Sarkozy teve, na opinião dos franceses, demasiados desatinos políticos para que fosse reeleito e os “novos ventos” do socialismo voltaram ao poder na velha Gália. Mas se Hollande prometeu bater o pé às vontades da senhora Merkel, no que à economia diz respeito, mantém a intransigência de Sarkozi contra os Roms (ciganos). No último mês, foram já três os campos de Roms evacuados à força: Lille, Lyon e, agora, Ile-de-France à Evry, nos arredores de Paris, com a expulsão de cerca de 80 pessoas.



Hollande até pode estar a ser menos agressivo do que Sarkozy no tom e nos modos utilizados para desmantelar os acampamentos. Mas não deixa de continuar a violar o Direito Comunitário, de continuar a perseguir uma comunidade e, acima de tudo, de persistir no erro de tentar resolver a questão de forma populista. A História ensina que não é por serem atirados “borda fora” de um país que os povos deixam de procurar uma vida melhor, deixam de buscar a “sua” terra de sonho. Liberdade? Igualdade? Fraterni… quê? Pois. Era isso, era.

A minha crónica, publicada ontem no Público.


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

As minhas manias.

Dou por mim, de todas as vezes que coloco uns phones, a confirmar qual o da direita e qual o da esquerda.
E a seguir a indicação, religiosamente.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

na hora de pôr a mesa.

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Puís Peixoto, A criança em ruínas.

[lá em casa, também éramos cinco; deve ser por isso que eu gosto tanto deste poema.]

Definição.

imagem vista aqui.


terça-feira, 28 de agosto de 2012

A banda sonora da minha noite.

"O idiota da esferográfica" *


Em 17 anos de "actividade" jurídica, adquiri e tenho, apenas, 2 Códigos Civis: o primeiro, comprado em 1995, quando entrei na faculdade; o segundo, em 2009 (igual ao da imagem), adquirido em pleno Mestrado, já que o velhinho CC que me acompanhava estava a desfazer-se de tanto uso e (literalmente) a desabar com tantos "enxertos" legislativos entretanto publicados.
Hoje, depois de feitas as as actualizações referentes à Lei do Arrendamento (foi uma tarde de "corta-e-cola"), cheguei à conclusão que deveria ter a coragem de decidir seriamente não comprar mais nenhum Código Civil (não tenho, mas deveria ter).
De 2009 até agora, já foram 9 os diplomas que alteraram o Código, o que dá uma média inferior a 6 meses entre cada alteração legislativa. Com tanta instabilidade e inconsistência legislativa, não há Código que aguente!



*o título é uma expressão do Ilustre Prof. Doutor Aníbal de Almeida, de quem tive a honra de ser aluna de Finanças Públicas, no meu 2.º ano, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra; identificava, naturalmente, o legislador. 

domingo, 26 de agosto de 2012

A justiça acima da vingança.

A 22 de Julho de 2011, a Noruega e todo o Mundo ficaram em estado de choque: um só homem, de 33 anos, assassinou bárbara e friamente 77 pessoas. Nos dias que se seguiram à tragédia, muito se soube sobre os pormenores horrendos dos crimes, sobre os seus fundamentos xenófobos e sobre a premeditação e o método utilizados pelo assassino.

A 24 de Agosto de 2012, decorrido pouco mais de um ano sobre o massacre, Andreas Breivik – o autor confesso dos atentados de Oslo e da Ilha de Utoya – conheceu a sua sentença, decidida por unanimidade pelos juízes que compuseram o Tribunal: passará os próximos 21 anos numa prisão de alta segurança, nos arredores de Oslo, e a pena poderá ser prorrogada indefinidamente se o assassino não abandonar as suas convicções xenófobas e for tido como socialmente perigoso.

Breivik foi considerado pelo Tribunal como “mentalmente são” e, por isso, imputável – essa era a grande questão a decidir, já que a autoria dos ataques sempre foi assumida. Considerado imputável, o extremista xenófobo foi condenado à pena máxima legalmente permitida pelo ordenamento jurídico norueguês; se tivesse sido considerado inimputável (um relatório psiquiátrico, elaborado no início do processo, considerou-o paranóico esquizofrénico), seria internado num hospital psiquiátrico para o resto da sua vida.

Apesar de uma declaração de inimputabilidade poder ter como consequência uma sanção de duração perpétua e, provavelmente, determinar o “esquecimento” da opinião pública relativamente a Breivik, uma sondagem recente, realizada pelo jornal Verdens Gang revela que cerca de 2/3 da população norueguesa pretendia ver o homem que abalou indelevelmente o seu país ser declarado “mentalmente são”, mesmo que isso lhe permita dar entrevistas e publicar livros, mantendo viva a memória de todo um povo.


Este sentimento, de justiça acima da vingança, revela muito sobre a nobreza do povo norueguês. Afinal, estamos perante um acto absolutamente abominável: na Ilha de Utoya, e em pouco mais de uma hora, o assassino disparou (segundo o que ficou provado) 121 tiros de pistola e 136 tiros de uma arma semi-automática, que ia recarregando em frente às suas vítimas, que esperavam sentadas para serem mortas. O desejo de castigo e sofrimento eterno para tão cruel algoz seria perfeitamente compreensível em todos quantos, até hoje, ainda não conseguiram perceber como teve este homem a coragem de praticar tal atrocidade. Mas este caso, a forma como o processo se desenrolou e o seu resultado, demonstram muito mais que isso.


Na verdade, demonstram antes de mais que os noruegueses acreditam na sua justiça. Assistiram à leitura da sentença cerca de 40 sobreviventes e familiares das vítimas, que ouviram, em silêncio, a pena aplicada a Breivik – nenhum suspiro, nenhum soluço; nenhuma exultação, nenhum lamento. Apenas um profundo respeito pelo Tribunal e uma aceitação sem reservas quanto à decisão dos juízes.



imagem daqui.
Mas não é apenas o povo norueguês que sai enaltecido deste desfecho. Também o sistema judicial norueguês deve ser elogiado, por ser confiável e sério. Recorde-se que o julgamento durou apenas 10 semanas, pouco mais de dois meses, tendo terminado e 22 de Junho deste ano. A sentença, com mais de 90 páginas, foi proferida em dois meses. Todo o processo fica, assim, concluído em pouco mais de um ano. Mas a rapidez da instrução e da decisão judicial não desconsiderou, em nenhum momento, a importância das vítimas e dos seus familiares nem o seu sofrimento. E, precisamente por isso, temos que, na sentença, são descritos com detalhe gráfico os pormenores dos crimes. Na sentença constam os nomes de cada uma das 69 vítimas da Ilha de Utoya (34 delas, com idades compreendidas entre os 14 e os 17 anos), cada uma das 8 vítimas mortais do atentado bombista no centro de Oslo e, ainda, cada uma das 8 pessoas que ficaram gravemente feridas na sequência destes assassinatos.



Não se trata de morbidez, mas de humanização das vítimas. É importante – é fundamental – que ninguém se esqueça de quem eram nem do que sofreram. Para que os que ficam possam seguir em frente, com a sua confiança no sistema jurídico reparada e com a certeza de que a ordem jurídica é inquebrantável, apesar de todas as violações que tenham lugar.



Uma das sobreviventes do massacre de Utoya, Emma Martinovic, teve o seguinte comentário ao conhecimento da sentença: “Agora, a vida pode verdadeiramente recomeçar.” A paz de espírito inerente a esta afirmação diz tudo. Que assim seja.

Publicado hoje, no Público.

A banda sonora da minha noite.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A banda sonora da minha noite.

The bucket list.


E eu que adoro listas - de livros, de filmes, de coisas feitas e coisas por fazer. Desta, 23 já cá cantam. Quase a meio da lista. Falta outro tanto. Haja tempo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A banda sonora da minha noite.


Nada de novo no telejornal 
Mais desemprego no nosso quintal 
Um homem farto de inflação 
Morreu com um ataque de informação 

 Já nada resta do que era de mim 
Há tanto tempo que eu não sei de ti 
E eles não passam na televisão 
Destas matérias do coração

Estouros, incêndios, inundações 
Epidemias, contradições 
Soam banais, em comparação 
Com estas matérias do coração 

E a locutora nem quer saber
Do meu amor, que já não me quer
O mundo descamba em informação
Alheio às matérias do meu coração 

Dois continentes que se davam mal
Chegaram a acordo no telejornal 
Fizeram as pazes na televisão
Eu e o meu amor é que não 

Estouros, incêndios, inundações
Epidemias, contradições
 Meros eventos sem dimensão 
Ao pé das matérias do coração
Ao pé das matérias do coração...

Miguel Araújo

Escravidão.

Teus mimos calor não têm,
Teu beijo é frio de gelo,
Não satisfaz, nem também
Me importa tê-lo ou não tê-lo.


O que me faz recebê-lo
Cativo do teu desdém,
é eu ter forjado o elo,
Da escravidão que me tem


A ti, preso, e que subjuga,
Quer seja rei ou pastor,
Desde o dia em que nasceu.


Desta sina não há fuga,
Mas na escravidão d'amor
O mais escravo sou eu.


António Xavier Cordeiro

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Ansiedade.

Quero compor um poema
onde fremente
cante a vida
das florestas das águas e dos ventos.

Que o meu canto seja
no meio do temporal
uma chicotada de vento
que estremeça as estrelas
desfaça mitos
e rasgue nevoeiros — escancarando sóis!


Manuel da Fonseca

sábado, 11 de agosto de 2012

Paraíso.

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão Ferreira, Infinito Pessoal ou a Arte de Amar.

Dúvida metódica.


[Nada dura para sempre. Todas as coisas boas devem acabar...
E quando começam?]


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A banda sonora da minha noite.


If you search for tenderness 
it isn't hard to find. 
You can have the love you need to live. 
But if you look for truthfulness 
You might just as well be blind. 
It always seems to be so hard to give. 

 Honesty is such a lonely word. 
Everyone is so untrue. 
Honesty is hardly ever heard. 
And mostly what I need from you. 

 I can always find someone
to say they sympathize. 
If I wear my heart out on my sleeve. 
But I don't want some pretty face 
to tell me pretty lies. 
All I want is someone to believe. 

 Honesty is such a lonely word. 
Everyone is so untrue. 
Honesty is hardly ever heard. 
And mostly what I need from you. 

I can find a lover. 
I can find a friend. 
I can have security until the bitter end. 
Anyone can comfort me 
with promises again. 
I know, I know. 

When I'm deep inside of me 
don't be too concerned. 
I won't as for nothin' while I'm gone.
But when I want sincerity 
tell me where else can I turn. 
Because you're the one I depend upon. 

 Honesty is such a lonely word. 
Everyone is so untrue. 
Honesty is hardly ever heard. 
And mostly what I need from you.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A banda sonora da minha noite.


Não vejo mais você faz tanto tempo
Que vontade que eu sinto
De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
É verdade, eu não minto

E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro

Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
e te querendo eu vou tentando me encontrar

E nesse desespero em que me vejo
já cheguei a tal ponto
de me trocar diversas vezes por você
só pra ver se te encontro

Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
e te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar

Fernando Mendes / José Wilson / Lucas

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Oh, “Porto Menu” PQP? *


Doze, treze, catorze, quinze minutos de fama. Manuel Leitão conseguiu, com um grafito, colocar-se nas bocas do mundo (portuense, pelo menos) – os manuais sobre Andy Warhol já podem ir para a prateleira. Mas, neste caso, os 15 minutos de fama foram originados pelas piores razões, pois nem sequer lhe vale a célebre frase de Oscar Wilde: “só há uma coisa pior do que ser falado, que é não ser falado”. Explique-se: Manuel Leitão é director da publicação “Porto Menu” e fez publicar na primeira página do mais recente número a inscrição “Rio és um FDP”. Rui Rio sentiu-se (naturalmente) insultado e processou (obviamente) Manuel Leitão. Em tribunal, o arguido – recusando liminarmente a interpretação que, certamente, todos os leitores tiveram ao deparar com tão singular saudação ao autarca na capa da revista – descodificou as três singulares letrinhas: “Fanático dos Popós”.

Mesmo tendo em conta a miríade de interpretações a que a Língua Portuguesa se presta nas mais variadas situações, esta argumentação é, no mínimo, um insulto à inteligência de todos e, muito mais grave do que isso, à Justiça. Hoje mesmo, Rui Rio esteve em tribunal, com o único objectivo de esclarecer uma singela dúvida: se era, ou não, “fanático dos popós”. Enfim...

Por mais que se discorde das decisões e tomadas de posições políticas de Rui Rio – e eu discordo de muitas delas, muitas vezes –, a honorabilidade das pessoas não pode nunca estar em causa: há limites, nomeadamente os da urbanidade e da educação. Goste-se ou não da forma como o autarca, eleito democraticamente para três mandatos consecutivos, dirige os destinos da cidade do Porto, não há subterfúgios linguísticos que possam valer a este acto de muito mau gosto e de verdadeira má-educação. Para mim, não restam dúvidas: Rui Rio foi insultado e tem direito a ver reparado o seu bom nome publicamente e a um pedido formal de desculpas.

Tão grave atitude como a daquele que prevarica é a daquele que abusa da democracia e do Estado de Direito de forma tão despudorada. O sistema judicial português tem o dever de atender a todas as situações que possam configurar uma violação aos direitos de terceiros. Os processos judiciais devem percorrer todos os trâmites necessários ao apuramento da verdade e esclarecimento dos factos. Utilizar como estratégia de defesa judicial uma argumentação que apenas é própria de uma criança de 3 anos é desrespeitar a Justiça. Convocar um cidadão (neste caso, com responsabilidades políticas, mas um cidadão) para ir a tribunal confirmar ou desmentir se é “Fanático dos Popós” é uma atitude que deve envergonhar mais o tribunal que o visado.

É evidente que Manuel Leitão ofendeu Rui Rio. O próprio tribunal o considerou, em despacho proferido hoje à tarde. Tendo-o feito conscientemente, deveria também estar preparado para sofrer as consequências da sua atitude. Mas o destemor de Manuel Leitão parece não ir tão longe; por isso, atirou a pedra e, agora, tentou esconder a mão. Utilizando o estilo linguístico do próprio, podemos dizer que foi um menino maroto.

* Por que prevaricaste?

A minha habitual crónica, publicada na passada sexta-feira no P3.

Nota: A caixa de comentários a este post está fechada, porque neste blog funciona a ditadura da autora. Por isso, a todos vós que discordais da minha opinião mas que preferis atacar as pessoas, insultando-as ou distorcendo as suas palavras em vez de discutirdes civilizadamente ideias, aconselho-vos a irdes aqui.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A banda sonora da minha noite.

Meditação de regresso ao trabalho.

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.


Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa.

Agosto.