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sábado, 1 de outubro de 2016

A mão chega.

Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo.
António Lobo Antunes

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Quando as palavras dos outros dizem o que nos vai no coração.

As pessoas não morrem: andam por aí. Quantas vezes as sinto à minha volta, não apenas a presença, o cheiro, a cumplicidade silenciosa, palavras que saem da minha boca e me não pertencem, penso

- Não fui eu quem disse isto

e realmente não fui eu quem disse isto, foram as pessoas mortas, exprimem opiniões diferentes das minhas, aproximam-se, afastam-se, vão-se embora, regressam, não me abandonam nunca. Em que parte da casa moram, qual o lugar onde dormem, devíamos deixar pratos a mais na mesa, talheres, copos, almoço que chegasse, os guardanapos nas argolas, um lugar no sofá, metade do jornal, dado que não se sumiram: andam por aí, invisíveis

(invisíveis?)

densas de humanidade, tão próximas. Umas alturas muitas, outras uma ou duas apenas por terem que fazer noutro lado, no caso de saírem não vale a pena preocuparmo-nos: têm a chave e a prova que têm a chave está em que entram, silenciosas, amigas, penduram os casacos no bengaleiro, sorriem. Onde se encontra o pai? Na cadeira do costume. Onde se encontra a avó? Lá fora, no quintal, a alinhar a roupa no frio, ou a fazer festas à cadela com a mão leve de sempre. Os cemitérios são lugares vazios, só árvores, sem defuntos, só a gente, que arranjamos as campas, sem entendermos que não existe ninguém lá em baixo. Para quê visitar ausências? Uns pardais nos choupos, nada. Que sítios tranquilos, os cemitérios, que inútil a palavra defunto. Segredam-nos

- Não faleci, sabes?

e não faleceram, é verdade, continuam, não na nossa lembrança, continuam de facto, pertinho. Quase sem ruído mas, tomando atenção, percebem-se, quase não ocupando espaço mas, reparando melhor, ali, iguais a nós, tão vivos. Andam por aí, pertencem-nos, pertencemos-lhes, não deixámos de estar juntos. Nunca deixámos de estar juntos: Quando é necessário poisam-nos a palma no ombro. Na época em que andei muito doente houve sempre palmas no meu ombro, a ajudarem. E agora, na mesa a escrever isto, espreitam o papel, sabem, melhor do que eu, as palavras que se seguem. O meu avô

- Não te aborrece escrever?

ele, a quem nunca vi ler um livro, instalava-se diante dos canteiros, em silêncio, a olhar as árvores, suponho que a olhar o Brasil da sua infância. Avôzinho. Tão diferente de mim: muito moreno, de cabelo encaracolado, lindo. Continua por aí, não deixe de continuar por aí. Um amigo meu, que disse a missa de corpo presente da mãe, contou-me que, ao voltar a casa semanas depois, a primeira pergunta que fez foi

- A mãe?

seguro de a achar num compartimento qualquer. E, de certeza

(isto já não me contou)

que deu com ela. Que dá com ela a cada passo. Nem é preciso interrogar seja quem for, a mãe encarrega-se de resolver o problema, haverá algum problema que uma mãe não resolva? Não é infantilidade da minha parte afirmar isto: é assim. Frase da minha, ontem

- A gente tem que se divertir ao divertir as crianças, porque se a gente não se divertir elas não se divertem

e eu de boca aberta. É que não há coisa mais séria que o divertimento. Os nossos brinquedos foram uma coisa importantíssima para o meu pai. Confiscava-nos alguns para seu gozo pessoal, secreto. A gravidade apaixonada com que ele jogava. Tenho os postais que o meu avô lhe mandava da guerra em França, derramados de ternura para um garotinho de dois anos. O paizinho gostava que o Janjão, etc. Andam os dois por aí agora, o Janjão e o paizinho. E, se calhar, o Janjão continua a receber postais. E de certeza que o Janjão continua a receber postais. É verdade não é, senhor, que continua a receber postais? Mesmo de bata, no hospital, mesmo professor, mesmo importante? Postais. Há quanto tempo não recebo postais. Uma carta de vez em quando, papelada da agência, das editoras, dos tradutores mas postais, postais-postais, népia. E aqueles que andam por aí, sei lá porquê, não me mandam nenhum. Ou mandam-se a si mesmas e acham que chega. E, em certo sentido, chega. Mas umas palavrinhas, num cartão, caíam bem, há alturas em que umas palavrinhas num cartão caem bem. Não sei porquê mas caem bem. Não faço nenhum livro agora, ando vazio, e o vazio começa a inquietar-me. E se isto acabou? Terei secado? Apareceu-me uma coisa mas não dava, de maneira que fiquei sem nada. As falsas partidas, os equívocos, pensar que se consegue e não se consegue. O que julgarão desta impotência aqueles que andam por aí? Não lhes falo nisso, claro, é o género de assuntos que guardo para mim, guardo quase tudo para mim. A casa frente ao mar que nunca tive, por exemplo, tenho prédios feios. Algumas árvores e prédios feios. Que silêncio. A minha filha, no computador, entretem-se com o que chama um jogo de estratégia, em lugar de se sentar no meu colo. Olho para o écran e não percebo raspas, deve ser uma estratégia complicadíssima. Afirma que está a construir coisas. Ao menos que haja alguém ao pé de mim a construir seja o que for, compenetrada, solene. Se olhar bem o seu ombro vejo a palma que poisou nela. Há palmas tão bonitas quanto os pássaros. Daqui a nada, sem que ela dê por isso, começa a cantar. Basta um bocadinho de atenção para a ouvir cantar. E, ao cantar, começo a escutar as ondas. Uma após outra. Para mim. Atrás destas janelas e destas árvores há-de haver uma praia. Reparem.

António Lobo Antunes, na Visão.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O porquê das coisas.

Pablo Picasso, Almoço sobre a erva inspirado na obra de Manet (1960)
Quando se pergunta por que é que determinado retrato de Picasso está verde, às vezes é porque o encarnado se tinha acabado.
Não vale a pena ir mais longe.

António Lobo Antunes, Entrevistas com António Lobo Antunes - Confissões do trapeiro, pág. 191.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Morte de Carlos Gardel

Solveig Nordlund, a realizadora sueca naturalizada portuguesa, volta aos écrans com a adaptação do romance A Morte de Carlos Gardel, de António Lobo Antunes.


O filme conta a história de Nuno, um jovem toxicodependente em coma, a morrer num hospital. Durante os dois dias em que se encontra entre a vida e a morte, cada um dos familiares evoca junto a ele uma teia de recordações do passado, através das quais percebemos o presente de Nuno. Álvaro e Cláudia, os pais divorciados e as suas novas relações disfuncionais, Graça, a tia médica que nunca terá filhos porque vive com Cristiana, todos eles se sentem culpados pelo estado de Nuno, pelos desalentos da vida, mas também pelos sonhos que criaram. O pai, Álvaro, apaixonado por tango, recusa-se a aceitar a morte de Nuno, deixando-se levar numa espiral de delírio e confundindo um imitador com o seu cantor de tango argentino favorito, já desaparecido: Carlos Gardel.

lido aqui.
mais informações aqui.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O amor e as relações.



Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam.

António Lobo Antunes, Diário de Notícias (2004)

lido aqui

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Casamento

Desenha-me uma árvore, desenha-me o sol, um sol a sorrir, com sobrancelhas e nariz, desenha-me nuvens com cerejas penduradas.
Desenha-me uma vaca. Ou um gato. Ou um elefante, já agora. Uma casa com um quintal. Isso: desenha-me uma casa com um quintal e nós dois à janela. Conta-me uma história. Não te vás embora ainda, conta-me uma história que acabe bem, com pessoas felizes para sempre. Mente-me. Faz o favor de me mentires desde que sejam mentiras que eu goste. Dá-me uma colher de compota, ervilhas com ovos escalfados, um beijinho na testa. Não custa muito, um beijinho na testa, de modo que a marca do baton fique na pele. Depois diz-me

- Podes ir

e eu vou, não me arrasto por aqui a maçar-te, prometo, a ler o jornal, a ocupar espaço, a encher tudo de fumo, a deixar cinza no chão. Aprendi a perceber quando as coisas acabam e, depois de onze anos de casados, é assim tanto pedir-te que desenhes uma árvore? Não te incomodes com o papel, qualquer papel serve, nem vale a pena procurares uma caneta, usa o lápis dos olhos, aquele com que, ao princípio, me sujavas o colarinho. Até nem me rala que ponhas a árvore, ou o sol, ou as nuvens no colarinho, se me perguntarem explico

- Foi a minha ex-mulher

e as pessoas compreendem. Não faças essa cara, compreendem, por que carga de água não haviam de compreender?
Não comentam

- Olha aquele com uma vaca na camisa

aprovam. Não acreditas em mim?
O problema é que nunca acreditaste em mim, a mesma conversa desde o princípio

- És maluco

e se calhar sou maluco, sei lá, que diferença faz se acabou? E uma vaca na camisa, o que tem? Quem diz vaca diz elefante, e vaca ou elefante o que tem? O mais natural é que nem reparem, conforme não repararam na falta de aliança no meu dedo. Pode ser que uma colega

- A tua aliança?

eu

- Perdi-a

ela

- Perdes tudo

e a voltar ao microscópio, desinteressada. Em todo o caso

- Perdes tudo

injusto, às vezes esqueço-me do guarda-chuva, como toda a gente, mas

- Perdes tudo

um exagero. Um exagero e uma mentira.
Perdi-te a ti e chega. Se me contares uma história que acabe bem, e acho que não custa contares uma história que acabe bem, ajuda. Não te levantes, por favor, espera um bocadinho que eu já saio, tenho a mala à porta, é só pegar nela, meter-me no carro e não tornas a pôr-me a vista em cima. Nem olho para as janelas, garanto, à procura de uma cara que não vai aparecer nos caixilhos, de uma mãozinha que não vai acenar, com esse verniz de unhas que me excita.
Desculpa confessar isto, que aliás neste momento não tem importância, mas excita-me, não leves a mal. Há outras partes tuas que me excitam, por exemplo aqui, não te zangues que não é uma carícia, é uma explicação, por exemplo aqui também e não vale a pena sacudires-me, sei perfeitamente que não sou desejado. Recordas-te de quando eu te lambia a orelha e tu

- Faz-me cócegas

mas sem tirares a orelha, a apertares-me a perna com mais força ainda? Consentes que te lamba uma última vez, uma vez pequenina, lambo e tiro logo, nem me sentes? Assim ao de leve, olha, a concha do ouvido, o lóbulo, o pescoço neste sítio, onde o cabelo tem caracolinhos pequeninos, lá estás tu a fechar os olhos e a respirar mais depressa, lá estão os teus ombros a tremerem. Tão bom quando os teus ombros tremem, quando te lamentas

- Estou toda arrepiada

e giras a cabeça, isso, para que te acaricie a nuca, desça um bocadinho ao longo do pescoço, te passeie no ombro devagar, estás a ver, toque ao de leve com a ponta do indicador, na ponta do peito que começa a ficar duro, que cresce, qual a razão da ponta do peito crescer, dos joelhos

- Não pares

começarem a afastar-se, da minha palma subir pelo interior da perna até este sítio, onde tudo mais tenro, mais dócil, mais suave, volta-te para este lado, desenha-me a tal árvore no peito, com a boca, vai descendo, se quiseres, que eu não levo a mal, não há motivo para levar-te a mal, que bom pegar no teu cabelo e guiar-te a cabeça, eu puxo o fecho éclair, não te incomodes, eu desaperto o cinto, o raio da fivela há-de obedecer, chama-me maluco, chama-me doido, chama-me fofinho, não pares, por amor de Deus não pares, mais depressa, assim, não mordas que aleija, quantas vezes é preciso dizer que aleija, raios te partam, vamos lá a fazer isso com jeitinho, como deve ser, vamos lá a fazer isso como uma maluca, uma doida, uma fofinha, ai tão lindo, estamos quase no fim, que árvore tão bem desenhada, que nuvem com cerejas penduradas, que gato, que elefante, que história bonita com pessoas felizes para sempre que me estás a contar, aguenta um segundo que tenho de ir à cozinha beber água e já volto, vou num pé e venho no outro, nem dás por isso, depois pões-me outra vez a aliança no dedo, a aliança pode esperar, o que interessa agora, que se lixe a aliança, mesmo sem aliança sou teu marido, tens aqui um sinal esquisito, umas rugas, de expressão uma ova, umas rugas, não te zangues se te confessar que envelheces sem graça, pede uma piza pelo telefone que o fogão não é o teu forte, há onze anos que engulo o que me dás sem um protesto, comemos uma piza, depois sentamo-nos no sofá, depois tu vês televisão e eu aborreço-me, depois tiras a minha roupa da mala e guardas tudo, como deve ser, nas gavetas, depois, antes de te deitares, não laves os dentes com a minha escova que detesto o teu hálito, e sobretudo pára imediatamente de me desenhares vacas na camisa com o lápis dos olhos, vão pensar que me passei dos carretos e fica sabendo que a palavra maluco, a partir de agora, desapareceu desta casa.

António Lobo Antunes
Visão, 20 de Janeiro de 2011