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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Tu que fumas

Adiro ao grande segredo da pedra, ao
prumo inteiro da sua própria sombra.
Brando, revejo a solar rotunda dos teus ombros
e (repito) há pedra sobre pedra, inicialmente.
És tu, portanto. Tu que dizes, Tu
que sopras as coisa, tu que fumas.

A todos direi que já sabia, mas é sempre
a remodelar lembrança a dar-me sangue.
Só que nem sempre, é isto, de algo serve:
pois que veias, mais do que intenção?
e que largura imensa só nos olhos?
Fumo sem fogo, amor? Sinais?


Pedro Tamen

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Por ti...


Por ti dou tudo, mortes, mais do que eu
possa de mim ou nada ser ou estar;
por ti me vejo e sujo, e sou sandeu,
viajo sem bilhete a marear

mareado de quem, ou em que posso
p'ra outro continente que contenha
fidelíssima a história que te faço
antes que conte, ou cante, ou livre venha

imitar os sossegos e as agruras
das alga-picos sob o sol caído
de tantas e cinzentas nuvens duras.

Por ti me fino, fano, e me divido
entre a noite de vela em que me curas
e o dia perto, porto, parto ferido.


Pedro Tamen

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O mar é longe, mas somos nós o vento















O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Mário Alles Támen

sábado, 30 de outubro de 2010

Os dias

Naquele tempo, viver era a melhor coisa do mundo.
Quando nascia o sol as pessoas viam
e os homens eram crianças para além dos montes.
Era uma planície, grande como convém a todas as planícies
e plana porque tudo estava certo.

Naquele tempo tínhamos sido criados e éramos iguais às ervas e às flores.
Tu, tão perfeita que impossível não seres,
tão erguida como um riso de andorinha,
tu estavas ao meu lado, naturalmente fresca,
e não havia motivos nem razões porque sabíamos tudo.

A nossa teologia era o beijo da criança mais próxima
e o deitarmo-nos na terra como folhas da mesma planta,
gratos, reduzidos, conscientes.
Olhando para cima, o céu abria-se e todos os Anjos vinham sentar-se no rebordo
e riam como nós pequenas gargalhadas.
Eu cantava canções mais belas do que não tendo palavras
e ouvias-me em silêncio e de olhos abertos, exactamente como a todos os sons.

Pedro Mário Alles Tamen