Pietà
Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.
Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.
Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;
Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.
Lisboa, Cadeia do Aljube, Natal de 1939 -
Como se fosse ainda em S. Pedro de Roma.
Miguel Torga
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
Sexta-feira da Paixão #6
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memória,
Miguel Torga
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Gostava.
Gostava de escrever hoje um belo poema, forte, quente, luminoso, escarolado, em louvor da vida. É que, sem saber porquê, respondi há bocado com palavras dum optimismo impressionante a um moço poeta que me exibia a sua decadência precoce. E doía-me a garganta nessa altura! Mas fui-lhe dizendo que qual morte ou qual cabaça! Vida! Vida conquistada em luta, como a do rebendo do milho que empurra, e consegue levantar o torrão e ver o sol. - Qual morte, homem de Deus! Você já viu por um acaso um pinheiro suicidar-se?
Gostava de escrever isto num belo poema.
Miguel Torga
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Miguel Torga
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
In Memoriam.
![]() |
| imagem de musicandphotography. |
Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
Miguel Torga
Partiu há já 17 anos. Ainda lhe sentimos a falta.
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Miguel Torga
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Recomeça...
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
Miguel Torga
Se puderes,
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
Miguel Torga
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sexta-feira, 4 de março de 2011
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Arrependimentos
![]() |
| imagem de Damian Hovhannisyan |
Poucos chegamos ao fim contentes por termos respondido a todos os acenos da vida. Levamos connosco para a sepultura o pesadelo dos gestos que não praticámos, dos sentimentos a que não demos expressão. A consciência de que a grande parte das oportunidades foram desperdiçadas e a íntima certeza de que tê-las aproveitado teria sido o melhor da nossa existência.
Miguel Torga
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Liberdade
— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga
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