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sábado, 21 de abril de 2012

Tarde de leitura.



Há sãos e doentes, pobres e ricos, desde que o mundo é mundo. Podemos aliviar a pobreza, tentar uma distribuição equitativa dos bens, refrear o egoísmo, a avidez e a especulação, mas não se pode esperar transformar os inaptos em génios usando simplesmente a educação, a quem é duro de ouvido não se pode ensinar que existe uma música divina no espírito humano, nem se conseguirá jamais converter à generosidade os ávidos e cobiçosos.

Sándor Márai, A Mulher Certa.

[talvez não possa. mas é pena.]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A pessoa certa.

Um belo dia, acordei, sentei-me na cama e sorri. Não sentia já dor. E, subitamente, percebi que não existe a pessoa certa. Nem na terra, nem no céu. Nem seja lá onde for, podes ter a certeza. Existem somente pessoas, e, em todas elas, um pedacinho da pessoa certa, mas em nenhuma se concentra tudo o que se aguarda e dela esperamos. Nenhuma pessoa reúne em si tudo isso, nem existe a certa, a única, a maravilhosa, essa figura singular que nos traz felicidade, Existem somente pessoas, e, em todas elas, há escórias e um raio de luz, tudo...

Sándor Márai, A Mulher Certa.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O envelhecimento.


Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso é também velhice. Quanto já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente.

Sándor Márai, As velas ardem até ao fim

[Concluído hoje, à hora do almoço. Recomenda-se vivamente.]

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Das lembranças e do tempo.


Tudo perdura no tempo, mas torna-se tão pálido como aquelas fotografias muito antigas que ainda foram fixadas em chapas metálicas. A luz e o tempo retiram das chapas as tonalidades nítidas e características dos traços. É preciso rodar a fotografia e encontrar uma certa refracção da luz para podermos reconhecer na obscura chapa metálica a pessoa cujas feições foram absorvidas pela placa. Deste modo se desvanecem no tempo todas as lembranças humanas. Mas um dia, a luz cai dum lado qualquer e tornamos a ver um rosto.

Sándor Márai, As velas ardem até ao fim.

[Iniciado ontem. Para aguçar a curiosidade, Pedro.]

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Um presente...

 
 
 
Recebido ontem, de quem me dá sempre tanto...
A ler em breve, muito em breve.
Obrigada. Sempre, por tudo.
 
 
Um pequeno castelo de caça na Hungria, onde outrora se celebravam elegantes saraus e cujos salões decorados ao estilo francês se enchiam da música de Chopin, mudou radicalmente de aspecto. O esplendor de então já não existe, tudo anuncia o final de uma época. Dois homens, amigos inseparáveis na juventude, sentam-se a jantar depois de quarenta anos sem se verem. Um, passou muito tempo no Extremo Oriente, o outro, ao contrário, permaneceu na sua propriedade. Mas ambos viveram à espera deste momento, pois entre eles interpõe-se um segredo de uma força singular... (sinopse)
 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

As palavras

imagem de Ewa Brzozowska
(…) – Perguntar o quê?... – diz em voz baixa, com uma ênfase depreciativa, como se fizesse troça de si mesmo.
– O que é que se pode perguntar das pessoas com palavras? O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da vida?... Vale pouco – diz com determinação. 
– São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completo à realidade das suas vidas. Talvez seja esse o fenómeno mais raro na vida. Na altura, ainda não o sabia. Agora não me refiro aos mentirosos, aos safados. Só penso que conhecer a verdade, adquirir experiências, de nada serve, porque ninguém consegue mudar o seu carácter. Talvez não se possa fazer mais nada na vida que adaptar à realidade com inteligência e cautela essa outra realidade inalterável, o carácter pessoal. É a única coisa que podemos fazer. E mesmo assim, não seríamos mais sábios, nem mais protegidos… Quero falar contigo, e ainda não sei se tudo aquilo que eu possa perguntar e tudo aquilo que tu possas responder não alterará os factos. Mas é possível a gente conhecer os factos, aproximar-se da realidade com a ajuda de palavras, perguntas e respostas: por isso quero falar contigo. (…)

Sándor Márai, As velas ardem até ao fim