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terça-feira, 8 de maio de 2012

Epigrama No. 8

Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.


Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí.

Cecília Meireles

segunda-feira, 19 de março de 2012

A essência.



Gosto das coisas de dentro.
O que está por fora muda a cada estação.
A essência, não.

Cecília Meireles.
 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Canção da Alta Noite


Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar...- enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
andar por andar - somente.
Não necessita de nada.

Cecília Meireles

[porque se comemoram hoje 110 anos do seu nascimento.]

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles