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terça-feira, 19 de abril de 2011

Às vezes.

Ele parou a meu lado, cabisbaixo. Parecia mais pequeno ainda. A barba tinha tons azulados na cara dele:
– Pois é… Nisso é que está o mal. Todos vão vivendo, sem se darem conta de nada, sem verem a miséria que há. E, mesmo que não houvesse miséria, serem verem a exploração do homem pelo homem, em que vivem e de que vivem. 
Levantou a cabeça para mim, e havia nos seus olhos um tom líquido que me perturbou:
– Tu já pensaste como vivem aqueles pescadores? E a gente do campo? E os operários? Tu já pensaste?
Pensara às vezes.

Jorge de Sena, Sinais de Fogo

imagem de truth__hurts, aqui

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Como tu queiras, amor...

Como queiras, Amor, como tu queiras.
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,
e nada, não, ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria
tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de malcontente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
Tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárnio, ou, pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti, porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'