Mostrar mensagens com a etiqueta refúgios meus. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta refúgios meus. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Recantiga.

E era as folhas espalhadas, muito recalcadas no correr do ano,
A recolherem uma a uma por entre a caruma de volta ao ramo.
E era à noite a trovoada que encheu na enxurrada aquela poça morta,
De repente, em ricochete, a refazer-se em sete nuvens gota a gota.
E era de repente o rio, num só rodopio, a subir o monte,
E a correr contra a corrente, assim de trás para a frente, a voltar à fonte.
Um monte de cartas espalhadas des-desmoronando-se todo em castelo,
E era linha duma vida sendo recolhida de volta ao novelo.
E era aquelas coisas tontas, as afrontas que eu digo e que me arrependo,
A voltarem para mim, como se assim tivessem remendo.
E era eu, um passarinho caído no ninho à espera do fim,
E eras tu, até que enfim, a voltar para mim...

https://youtu.be/tV9HscpC-RU

Despedidas.

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill, Poesias Completas.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

In Memoriam

E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa é nada me prende.

No dia em que passam 80 anos sobre a sua morte.

(O excerto é do heterónimo Bernardo Soares - Livro do Desassossego, trecho 10, Assírio & Alvim, 1998, p. 53.
O esboço tem o traço inconfundível do Mestre Júlio Pomar.)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O dia em que te deixei.

Gosto de recordar as datas e os momentos felizes. São eles que me enchem o peito, é a sua memória que me alimenta os dias. No que te respeita, gosto de recordar o dia em que nasceste, os dias em que me levavas aos ombros, o dia tão falado até hoje em que me deixaste partir uma dúzia de ovos no chão da cozinha.
Há apenas uma excepção: o dia de hoje. Este dia ficou mais gravado em mim que o dia em que tu nos deixaste. Foi um dia claro aquele, estava sol, muito sol. Muita gente, muitos abraços, muitas flores. Gente demais, abraços demais; só as flores nunca são demais.
Dois dias antes, sem grande surpresa mas com a angústia inerente à inevitabilidade do momento, recebi a notícia de que te tinhas ido embora. Fugiu-me o chão debaixo dos pés. Senti-me perdida, sentimo-nos todos assim, sabes? Era muito cedo, havia ainda tanta coisa a fazer, tanto a dizer, e tu já cá não estavas. Ficou muito por completar: não chegaste a levar-me ao altar, não chegaste a dar a mão ao F., não chegaste a tê-lo nos braços.
A 13 de julho de 2006, precisamente a esta hora, começava o ritual da nossa despedida. Já te disse que estava um lindo dia de sol? E, ainda assim, o céu para mim estava negro, escuro como breu. Foi preciso subir a escada da dor e plantar no infinito a Estrela mais brilhante do universo. Aquela que o F. reconhece e sente como sua protetora. Aquela para a qual eu olho em busca de orientação, de auxílio, de consolo.
E é por isso, Avô, que eu gosto de recordar o dia em que te deixei.

imagem daqui.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

As minhas manias.

Gosto de guardanapos de pano. 
Gosto de camas feitas de lavado e de lençóis brancos de algodão. 
Gosto de mimos. 
Gosto do cheiro dele. 
Gosto de mantas, mesmo no verão. 
Gosto do cheiro da terra molhada. 
Gosto de chá 365 dias por ano, de manhã, à tarde e à noite. 
Gosto de Liszt. 
Gosto de jantares tardios, com pão, queijo, vinho e uma boa companhia. 
Gosto de lápis bem afiados e de canetas de tinta permanente. 
Gosto de sorrisos abertos e de gargalhadas sonoras. 
Gosto do calor do sol no meu rosto. 
Gosto de manhãs longas à mesa do pequeno-almoço. 
Gosto de sapatos. 
Gosto de sorrisos abertos. 
Gosto da pele do meu filho. 
Gosto de Rembrandt e de Caravaggio. 
Gosto de livros. 
Gosto do meu pescoço. 
Gosto do barulho da chuva a bater na vidraça. 
E há dias em que gosto da vida.


imagem daqui.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Capa negra de saudade.

Houve um tempo em que, na primeira quinta-feira do mês de Maio de cada ano, por volta desta hora, eu me preparava para uma noite muito especial. Calçava, com muito cuidado, as meias pretas; enfiava a saia justa e apertava, um a um, os botões da camisa alva. Fazia, concentrada, o nó na gravata preta, vestia o casaco da mesma cor e calçava os sapatos de salto. Colocava a capa longa, pesada e cheia de memórias sobre os ombros. Pegava na pasta e batia a porta de casa, rumo ao primeiro de uma série de jantares típicos com amigos vestidos com os mesmos trajes.
Voltava a casa quando a "minha" Sé Velha já estava pejada de gente, furando e empurrando como podia para voltar a entrar em casa.
À meia-noite em ponto, debruçava-me na janela do meu quarto, sobre o largo cujo chão era um negro mar de gente, e fechava os olhos aos primeiros acordes das guitarras portuguesas. Respirava fundo, na ânsia de absorver todo aquele ambiente.
Por tudo o que ali vivi e também por essas noites, Coimbra faz parte de mim. E hoje, particularmente hoje, eu sou filha do Mondego.

terça-feira, 6 de março de 2012

A banda sonora da minha noite...


Anda comigo ver os aviões levantar voo,
A rasgar as nuvens,
Rasgar o céu...

Anda comigo ao Porto de Leixões ver os navios
A levantar ferro,
A rasgar o mar...


Um dia eu ganho a lotaria,
Ou faço uma magia,
(mas que eu morra aqui)
Mulher, tu sabes o quanto eu te amo,
O quanto eu gosto de ti;
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América,
Nem que eu leve a América até ti...


Anda comigo ver os automóveis à avenida
A rasgar as curvas,
A queimar pneus...

Um dia vamos ver os foguetões levantar voo,
A rasgar as nuvens,
A rasgar o céu...


Um dia eu ganho o totobola,
Ou pego na pistola -
Mas que eu morra aqui -
Mulher, tu sabes o quanto eu te amo,
O quanto eu gosto de ti;
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à lua,
Nem que eu roube a lua

Só para ti...
 

 Um dia eu vou jogar a bola,
Ou vendo esta viola:
Nem que eu morra aqui.
Mulher, tu sabes o quanto eu te amo,
O quanto eu gosto de ti;
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América,
Nem que eu leve a América até ti...

Mais músicas aqui.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A banda sonora da minha noite...


Da banda sonora do filme Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore (1988):
Love theme (‘Se’) - música de Ennio Morricone & Andrea Morricone; letra de Alessio De Sensi.

Se tu fossi nei miei occhi per un giorno
Vedresti la bellezza che piena d’allegria
Io trovo dentro gli occhi tuoi
E nearo se magia o lealta

Se tu fossi nel mio cuore per un giorno
Potresti avere un’idea
Di cio’ che sento io
Quando m’abbracci forte a te
E petto a petto, noi
Respiriamo insieme

Protagonista del tuo amor
Non so se sia magia o realta’

Se tu fossi nella mia anima un giorno
Sapresti cosa sento in me
Che m’innamorai
Da quell’istante insieme a te
E cio’ che provo e
Solamente amore

 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A banda sonora da minha noite...


Porque todos os inícios de ano
representam um novo começo,
uma nova história,
um novo "Era uma vez...".

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Porque todos os dias são bons para ler Pessoa.


Em voz alta seguramente não, mas volta e meia releio passagens do livro que, desde há anos, tem lugar cativo na minha mesa de cabeceira.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Noite de teatro.



Eunice Muñoz regressa ao Porto, desta vez acompanhada por Pedro Caeiro; à frente do elenco, estes dois actores estarão no Teatro Municipal Rivoli até ao próximo dia 18 de Setembro, com a peça "O Comboio da Madrugada", de Tennessee Williams, encenada por Carlos Avilez.
A grande Eunice Muñoz é Flora Goforth, a velha milionária excêntrica, decadente e iludida que se toma de amores por um rapaz, Chris Flanders, apelidado por muitos como o anjo da morte pelo seu longo historial de visitas a velhinhas na hora da morte.
Isto é tudo quanto, por ora, sei do que me espera.
Será, seguramente, uma boa noite.


Actualização, em 15.09.2011: Actuação soberba, que permanecerá na minha memória por muito tempo.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Alma portuguesa.


Almas vencidas,
Noites perdidas,
Sombras bizarras...
Na Mouraria
Canta um rufia,
Choram guitarras!
Amor, ciúme,
Cinzas e lume,
Dor e pecado...
Tudo isto existe,
Tudo isto é triste,
Tudo isto é fado.