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sábado, 8 de outubro de 2011

De olhos abertos.


Ao falar, hoje de manhã, com o empregado que nos traz de volta as roupas que enviamos para a lavandaria, não senti qualquer diferença, mas nenhuma mesmo, em relação ao que sentiria se tivesse falado, no seu tempo, com Churchill. Trata-se simplesmente do contacto com um ser humano. Há pessoas mais agradáveis do que outras, mas não por razões de classe, nem mesmo de cultura. (...) Nós somos todos parecidos e caminhamos para os mesmos fins.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos.


imagem daqui.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

De Olhos Abertos

E é por isso que, no fundo, não tenho por mim mesma mais do que um interesse limitado. Tenho a impressão de ser um instrumento através do qual passaram correntes, vibrações. Isto é válido para todos os meus livros e direi mesmo que para toda a minha vida. Talvez para todas as vidas; e os melhores de nós talvez não sejam, também eles, mais que cristais trespassados. Assim, a propósito dos meus amigos, vivos ou mortos, repito-me muitas vezes a frase admirável que me disseram ser de Saint-Martin, «o filósofo desconhecido» do século XVIII, tão desconhecido de mim que nunca li uma linha dele e nunca verifiquei a citação: «Há seres através dos quais Deus me amou.» Tudo vem de mais longe e vai mais longe que nós. Por outras palavras, tudo nos ultrapassa e sentimo-nos humildes e maravilhados por termos sido assim trespassados e ultrapassados.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos

[comprado ontem, iniciado hoje. a companhia
mais recente das horas que são só minhas.]

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

(Re)Nascimentos

imagem de Anne Dorel
Le véritable lieu de naissance est celui où l'on a porté pour la première fois un coup d'oeil intelligent sur soi-même: mes premières patries ont été des livres.

Marguerite Yourcenar

domingo, 19 de dezembro de 2010

Fogos III

Não há amor infeliz: 
não possuímos senão aquilo que não possuímos.
Não há amor feliz:
o que possuímos, já não o possuímos.

Marguerite Yourcenar, Fogos


domingo, 31 de outubro de 2010

Fogos II

Existe, para todos os pensamentos, para todos os amores que, entregues a si próprios, talvez desfalecessem, um cordial singularmente enérgico que é TODO O RESTO DO MUNDO, que está em oposição a ele, e que não vale.

Marguerite Yourcenar, Fogos

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Deambulações...

«Duas horas da manhã. Os ratos procuram nos caixotes os restos do dia morto: a cidade pertence aos fantasmas, aos assassinos, aos sonâmbulos. Onde estás tu, em que leito, em que sonho? Se te encontrasse, tu passarias sem me ver pois não somos vistos pelos nossos sonhos. Não tenho fome: esta noite não consigo digerir a minha vida. Estou cansada: caminhei toda a noite para semear a tua recordação. Não tenho sono: nem sequer tenho apetite da morte. Sentada num banco, embrutecida apesar de tudo pela aproximação da manhã, deixo de me lembrar que te procuro esquecer. Fecho os olhos... os ladrões não querem senão os nossos anéis, os amantes a carne, os pregadores as nossas almas, os assassinos a vida. Podem tirar-me a minha: desafio-os a nada lhe mudar. Inclino a cabeça para ouvir por cima de mim o remexer das folhas... Estou num bosque, num campo... É a hora em que o Tempo se disfarça de varredor e Deus talvez em trapeiro. Ele avarento, ele teimoso, ele que não consente que se perca uma pérola nos montes de cascas de ostras às portas das tabernas. Pai nosso que estais no céu... Verei alguma vez vir sentar-se a meu lado um velho de sobretudo castanho, com os pés enlameados por ter tido, para me alcançar, de atravessar sabe Deus que rio? Ele deixar-se-ia cair no banco, tendo na mão fechada um presente muito precioso que seria o bastante para tudo mudar. Abriria os dedos lentamente, um após outro, muito prudentemente, por que aquilo foge... Que seguraria ele? Uma ave, um germe, uma faca, uma chave para abrir a lata de conserva do coração?»
Marguerite Yourcenar, Fogos

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A cumplicidade

A paixão tem virtualidades extraordinárias: estarmos apaixonados torna-nos mais leves, mais soltos, mais felizes. O outro (o objecto do nosso encantamento) é perfeito, absolutamente fantástico e infinitamente superior a todos os outros. Só na sua companhia nos sentimos plenos, porque só ele nos preenche completamente.
Todavia, como todos os que já nos apaixonámos bem sabemos, ela (a paixão) passa, às vezes até demasiado rápido. E o que fica depois disso depende sobretudo daquilo que se foi construindo durante os intensos momentos de enamoramento mútuo. Pode ficar uma amizade, pode a paixão transformar-se em amor, ou pode tudo terminar, pura e simplesmente, da mesma forma - abrupta e arrebatada - como começou.
Em qualquer destes casos, aquilo que não é, de todo, garantido, é que se crie ou subsista entre ambos os ex-enamorados uma relação de cumplicidade. Conheço (conhecemos todos) casais que estão juntos há anos e não conseguem ser coniventes nas suas acções, não conseguem antever as reacções do outro, não conseguem antecipar-se nas palavras ou nos gestos.
De facto, a relação de cumplicidade é algo que, em qualquer tipo de relação, não se finge nem se disfarça: ou se tem ou não se tem. E revela-se por gestos tão simples como um cruzar de olhares, o completar a frase do outro ou um gesto coincidente.
Os que têm a felicidade de conseguir construir uma relação de cumplicidade - sejam amigos, colegas, amantes ou membros de um casal - têm um tesouro.
Ser cúmplice é estar unido por laços que nem a distância desata. Laços que se transformam em nós e que, por isso, já não é possível desatar. Nós que nem com a morte se desfazem.

«Há entre nós melhor do que um amor: uma cumplicidade.»
Marguerite Yourcenar, Fogos.