sexta-feira, 18 de março de 2011

Carta ao filho

Se puderes guardar o sangue frio diante
de quem fora de si te acusar e, no instante
em que duvidem de teu ânimo e firmeza,
tu puderes ter fé na própria fortaleza,
sem desprezar contudo a desconfiança alheia...

Se tu puderes não odiar a quem te odeia,
nem pagar com a calunia a quem te calunia,
sem que tires daí motivos de ufania,
sonhar, sem permitir que o sonho te domine,
pensar, sem que em pensar tua ambição se confine,
e esperar sempre e sempre, infatigavelmente...

Se com o mesmo sereno olhar indiferente
puderes encarar a Derrota e a Vitória,
como embustes que são da fortuna ilusória,
e estóico suportar que intrigas e mentiras
deturpem a palavra honesta que profiras...

Se puderes, ao ver em pedaços destruída
pela sorte maldosa, a obra de tua vida,
tomar de novo, a ferramenta desgastada
e sem queixumes vãos, recomeçar do nada...

e tendo loucamente arriscado e perdido
tudo quanto era teu, num só lance atrevido,
se puderes voltar à faina ingrata e dura,
sem aludir jamais à sinistra aventura...

Se tu puderes coração, músculos, nervos
reduzir da vontade à condição de servos,
que, embora exausto, lhe obedeçam ao comando...

Se, andando a par dos reis e com os grandes lidando,
puderes conservar a naturalidade,
e no meio da turba a personalidade,
impávido afrontar adulações, engodos,
opressões, merecer a confiança de todos,
sem que possa contar, todavia, contigo
incondicionalmente o teu melhor amigo...

Se de cada minuto os sessenta segundos
tu puderes tornar com teu suor fecundos...

a Terra será tua, e os bens que se não somem,
e, o que é melhor, meu filho, então serás um Homem!


Rudyard Kipling

The best thing.

Deus e o Diabo ou as confusões do homem.

imagem vista aqui

Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor.
O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.

Machado de Assis

quinta-feira, 17 de março de 2011

Com dedicatória.

Assim falava.

Entretanto, Zaratustra olhava a multidão, e assombrava-se. Depois falava assim:
“O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.
O grande do homem é ele ser uma ponte, e não uma meta; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento.

Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado.
Amo os grandes desdenhosos, porque são os grandes adoradores, as setas do desejo ansiosas pela outra margem.

Amo os que não procuram por detrás das estrelas uma razão para morrer e oferecer-se em sacrifício, mas se sacrificam pela terra, para que a terra pertença um dia ao Super-homem.
Amo o que vive para conhecer, e que quer conhecer, para que um dia viva o Super-homem, porque assim quer o seu acabamento.

Friedrich Nietzsche, de Edvard Munch (1906)
Amo o que trabalha e inventa, a fim de exigir uma morada ao Super-homem e preparar para ele a terra, os animais e as plantas, porque assim quer o seu acabamento.
Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude é vontade de extinção e uma seta do desejo.

Amo o que não reserva para si uma gota do seu espírito, mas que quer ser inteiramente o espírito da sua virtude, porque assim atravessa a ponte como espírito.
Amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois assim, por sua virtude, quererá viver ainda e deixar de viver.

Amo o que não quer ter demasiadas virtudes. Uma virtude é mais virtude do que duas, porque é mais um nó a que se aferra o destino.
Amo o que prodigaliza a sua alma, o que não quer receber agradecimentos nem restitui, porque dá sempre e se não quer preservar.

Amo o que se envergonha de ver cair o dado a seu favor e que pergunta ao ver tal: “Serei um jogador fraudulento?” porque quer submergir-se.
Amo o que solta palavras de ouro perante as suas obras e cumpre sempre com usura o que promete, porque quer perecer.

Amo o que justifica os vindouros e redime os passados, porque quer que o combatam os presentes.
Amo o que castiga o seu Deus, porque ama o seu Deus, pois a cólera do seu Deus o confundirá.

Amo aquele cuja alma é profunda, mesmo na ferida, e ao que pode aniquilar um leve acidente, porque assim de bom grado passará a ponte.
Amo aquele cuja alma transborda, a ponto de se esquecer de si mesmo e quanto esteja nele, porque assim todas as coisas se farão para sua ruína.

Amo o que tem o espírito e o coração livres, porque assim a sua cabeça apenas serve de entranhas ao seu coração, mas o seu coração, o leva a sucumbir.
Amo todos os que são como gotas pesadas que caem uma a uma da sombria nuvem suspensa sobre os homens, anunciam o relâmpago próximo e desaparecem como anunciadores.

Vede: eu sou um anúncio do raio e uma pesada gota procedente da nuvem; mas este raio chama-se o Super-homem”.

Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, IV parte.

Toda a Terra

imagem de mds












Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus

Ruy Belo

quarta-feira, 16 de março de 2011

Para ti.


Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen

[recordado ontem. dedicado hoje. a ti, sempre.] 

 

Um começo.

terça-feira, 15 de março de 2011

Silêncio e tanta gente.

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar;
É uma pedra,
É um grito,
Que nasce em qualquer lugar...

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou;
E esta pedra,
E este grito,
São a história daquilo que eu sou...

Às vezes sou o tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar.
Às vezes sou também
Um sim alegre,
Ou um triste não...
E troco a minha vida por um dia de ilusão...
E troco a minha vida por um dia de ilusão...

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer;
É uma pedra,
Ou é um grito,
De um amor por acontecer...

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou;
E esta pedra,
E este grito,
São a história d'aquilo que sou...

Maria Guinot

[Esta música, de 1984, está de novo na moda;
o poema, esse, nunca deixou de estar...]

imagem de Stefan Beutler

segunda-feira, 14 de março de 2011

É tarde.



Primeiro levaram os negros.
Mas não me importei com isso. Eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários.
Mas não me importei com isso. Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis.
Mas não me importei com isso. Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados.
Mas como tenho meu emprego, também não me importei.
Agora estão me levando.
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém.
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht

lido aqui.

Legenda

 
O homem só é verdadeiro quando se julga incógnito.
Se tem de representar a sua pessoa,
a arte absorve-o e desvia-o do seu próprio ser.

Teixeira de Pascoaes

...

domingo, 13 de março de 2011

Loucura

imagem de Ewa Brzozowska
Já alguém sentiu a loucura vestir de repente o nosso corpo? Já.
E tomar a forma dos objectos? Sim.
E acender relâmpagos no pensamento? Também.
E às vezes parecer ser o fim? Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima? Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor que nos faz seguir viagem sem paragem nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins na aula de descer abismos e fazer dos abismos descidas de recreio e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível atrevidamente e ganhar-lhe, e ganhar-lhe a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira para tudo?
Tu só, loucura, és capaz de transformar o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar a quem tas vier buscar.

Almada Negreiros

sábado, 12 de março de 2011

Vejam bem. Com olhos de ver.

Sweet home.

Acasos. Ou talvez não.

Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.

Charlie Chaplin

sexta-feira, 11 de março de 2011

Casa









  




Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

David Mourão Ferreira

No escape.






[imagens de Suzii.]

Um café, por favor.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Resistência.

Admiro os resistentes,
os que fizeram do verbo “resistir” carne, suor, sangue,
e demonstraram sem espaventos
que é possível viver,
mas viver de pé,
mesmo nos piores momentos.


Luis Sepúlveda



Pausa


Quente, forte, intenso.
Como se quer. Como se precisa.

Mudanças. Drásticas.

Canção de Embalar

quarta-feira, 9 de março de 2011

Reflexos

Reflexos de uma realidade que, ficando para trás, deixa sombras sobre o presente que se repercutem no futuro...

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia de carnaval.


Hoje, só hoje, façamos ao contrário.
Tiremos a máscara que colocamos diariamente
e sejamos nós próprios.
Só hoje.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Noite de máscaras...

imagem de Meister Des Zirkuss

O meu passado.

O meu passado é tudo quanto não consegui ser.
Nem as sensações de momentos idos me são saudosas:
o que se sente exige o momento;
passado este, há um virar de página
e a história continua, mas não o texto.

Fernando Pessoa


Pedaço de vida # 6



Manhã de frio.
Mais frio do que o costume. 
Chega mesmo a nevar.
Não no exterior; dentro de mim.

A verdade.

sábado, 5 de março de 2011

Legenda


Trazias contigo como sempre
alvoroço e início...

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Livros e a Vida.

(...) Os livros não servem para sermos mais "cultos", mais "informados", mais "preparados". Servem para estarem presentes quanto tudo o resto está ausente: eles são o refúgio do mundo quando o mundo persiste em avançar do avesso. Eles são o porto que nos aguarda quando a embarcação está perdida ou destruída. Eles são o primeiro e o último brinde aos amigos que não tivemos, aos sonhos que não vieram. E, como na canção francesa, a todas as mulheres que não nos amaram. A vida nem sempre é justa (...).

João Pereira Coutinho, Revista Única, 12.07.2008.

Resolução

quinta-feira, 3 de março de 2011

Regresso


De volta a casa, ao nosso mundo, à nossa vida.
De volta aos teus braços, aos teus abraços, aos teus carinhos.
De volta a ti, de volta a nós. De volta ao que nos pertence.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Partida


De mala feita e pronta para partir.
Levo comigo projectos, vontades, desejos.
Largo para trás vivências, descobertas, encantos.
O que deixamos é sempre muito mais do que o que transportamos connosco.

O dever de sonhar.

Eu tenho uma espécie de dever, de dever de sonhar, de sonhar sempre, pois sendo... mais do que um espectador de mim mesmo, eu tenho que ter o melhor espectáculo que posso.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

terça-feira, 1 de março de 2011

The secret.



If you haven't cried, your eyes can't be beautiful. 

Sophia Loren

Ditos.


É bom escrever porque reúne as duas alegrias:
falar sozinho e falar a uma multidão.

Cesare Pavese

A banda sonora da minha noite...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Crer para ver.


Começar por amar a impressão de um só corpo. Mais tarde buscar em vários, muitos, um só corpo já das mãos e dos lábios conhecido. Depois amar por partes, escolhendo, as mais das vezes, a pequena imperfeição onde o prazer se acende. Tudo isto longe, muito longe do amor.

É que doem tanto as primeiras paixões que se enfurece justamente. O que se encontra é outra coisa, talvez melhor, talvez, mas não o que se tinha mais que tudo preferido. Os dedos a perderem-se nos cabelos, por exemplo. Só isso? A paixão tem de doer, é isso que quer dizer. Tudo isto muito tempo, porque mesmo assim não se desiste facilmente.

E depois, ao perder a âncora, a paixão faz volteio dentro da cabeça. Então vem a saudade que lhe enche o peito e vive só de sombras e fantasmas com insónia. É de uma fidelidade triste porque sem motivo. Dorme-se de menos por se sonhar demais e é tudo.

Por isso se desespera e se procura sem perder mais tempo, porque já se vai atrasado, aquilo que se perdeu naquilo que em volta há. Pode demorar muito tempo e nunca se ir encontrar. Pode apegar, pegar, apanhar, mas não mais apaixonar. Apaixonar é verbo passado, primitivo. Vai-se de corpo em corpo à procura do mesmo e é sempre outro e diferente e dá tonturas e dá trabalho e causa dor, não nele, imune, mas nos outros, que se deixam embaraçar, abrasar, enganar, porque talvez também se queiram enganar.

E chega o tempo de preferir a cara deste, e as mãos desta, e o corpo-tronco daquele ou tudo junto de repente. É o tempo de analisar tudo minuciosamente, partir, despedaçar, ver por dentro, dar a volta sem pretender sequer voltar a reparar. E pode-se ficar por aqui e pode-se até voltar atrás, mas já não da mesma maneira, porque para voltar só vale a pena por uma pior. É o vício a descobrir-se na repetição atraente, irrecusável mesmo, com cenas de ódio pelo meio a intervalar. Tudo isto mais longe do amor, se for possível. O amor sempre mete muito medo.

Mais vale aquela pequena imperfeição onde o desejo se acende e arde e leva consigo o tempo em frente. Amanhã o abismo, mas só amanhã. Como recusar, o que vem assim sem se saber porquê? Como cansar o que prefere morrer a sossegar? Para quê afastar o que se dá no presente e o enche nem que seja no bastante momento em que se está? Não há resposta e é de propósito que a não há. É preciso ficar doente para se curar e quanto mais doente melhor e pior ao mesmo tempo. E pode-se ficar assim ou querer voltar ao começo, só que já não o há, é só pequena superstição a aliviar a alma brevemente de tanta ilusão que só serve para atrapalhar.

Pode-se ficar frio no corpo e quente na cabeça. Ou frio no corpo e trazer o corpo a escaldar. Pode-se querer mais do que tudo perder a cabeça ou deitar o corpo pela janela do sétimo andar. Pode-se demais, é esse o problema. E se todos se portam mal já não vale a pena portarmo-nos mal, não será assim? Pode ser. E depois há a idade a trazer cabelos sem qualquer cor com a cara frente ao espelho sem se querer acreditar. E o medo cresce sempre. E o prazer precisa de crescer ainda mais para o abafar. E o corpo começa a doer e a adoecer e a recusar servir o que quer que seja, a não prestar nem para comer, quanto mais.

E pode-se ficar por aqui, ou recuar. Mas não é possível recuar, ou simplesmente então acabar de livre vontade ou imperiosa necessidade por já não se aguentar. É sempre demasiado tarde para acabar. Não vale a pena acabar.

E depois dá-se o milagre. O que pressupõe que tudo o resto fica tal como está, e como é perfeito, insuficiente, as mais das vezes repelente. O milagre acontece ou não e é tudo. Nem é natural que aconteça. É por isso que é milagre. O amor pode chegar. Mas donde vem? Para onde vai? Quando chega vem para quê, o amor? Grande e inútil milagre este sem resposta e é de propósito que não tem resposta.

Há quem não acredite e está bem assim. E há quem só acredite e ainda é melhor assim. Como em tudo é preciso crer para ver. Mas não é preciso, menos ainda obrigatório, é uma graça que só vem se quiser, quando quiser e pelo tempo que quiser e é o melhor de tudo o que possa acontecer. E o prazer é a recompensa que acompanha o bom trabalho, entre todos o mais difícil, agora perto, muito perto, o trabalho do amor.

Pedro Paixão

and the winner is...



sábado, 26 de fevereiro de 2011

Dia de.


Dia de escrita, dia de flores.
Dia de arrumação, dia de projectos.
Dia de memórias, dia de esperanças.
Dia de tudo, dia de nada.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Anjos mulheres

As mulheres voam
como os anjos
Com as suas asas feitas
de cristal de rocha da memória
Disponíveis
para voar
soltas...
Primeiro
lentamente uma por uma
Depois,
iguais aos pássaros
fundas...
Nadando,
juntas
Secreta a rasar o
chão
a rasar a fenda
da lua
no menstruo
por entre a fenda das pernas
Às vezes é o aço
que se prende
na luz
A dobrarmos o espaço?
Bruxas
pomos asas em vassouras
de vento
E voamos
Como as asas
lhe cresciam nas coxas
diziam dela
que era um anjo do mar
Rondo alto,
postas em nudez de ombro
se pernas
perseguindo,
pelos espaços,
lunares
da menstruação
e corpo desavindo
Não somos violência
mas o voo
quando nadamos
de costas pelo vento
até à foz do tempo
no oceano denso
da nossa própria voz
Sabemos distinguir
a dormir
os anjos das rosas voadoras
pelo tacto?
Somos os anjos
do destino
com a alma
pelo avesso
do útero
Voamos a lua
menstruadas
Os homens gritam
- são as bruxas
As mulheres pensam
- são os anjos
As crianças dizem
- são as fadas
Fadas?
filigrama cintilante
de asas volteando
no fundo da vagina
Nadamos?
De costas,
no espaço deste século
Mudar o rumo
e as pernas mais ao
fundo
portas por trás
dobradas pelos rins
Abrindo o ar
com o corpo num só golpe
Soltas,
voando
até chegar ao fim
Dizem-nos
que nos limitemos ao espaço
Mas nós voamos
também
debaixo de água
Nós somos os anjos
deste tempo
Astronautas,
voando na memória
nas galáxias do vento...
Temos um pacto
com aquilo que
voa
- as aves
da poesia
- os anjos
do sexo
- o orgasmo
dos sonhos
Não há nada
que a nossa voz não abra
Nós somos as bruxas da palavra

Maria Teresa Horta
 

Ritos.



Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, a partir das três horas começo a ser feliz. Quanto mais se aproximar a hora, mais feliz me sentirei. Às quatro horas perturbo-me e inquieto-me; descobrirei, assim, o valor da felicidade! Mas se vieres seja quando for, nunca sei a que horas hei-de ataviar o coração… São precisos ritos.

Antoine de Saint-Exupery, O Principezinho

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Ditos



As pessoas não são inteiramente boas ou más, ásperas ou afectuosas. Não nascem com uma predisposição natural para uma ou outra coisa. As pessoas convertem-se, moldam-se, expandem-se ou refugiam-se. Tão simples quanto isso.
A faceta que se vislumbra em cada uma delas é proporcional àquilo que nelas se alimenta. Todos carregamos a perfídia e a ternura. Ali, em simultâneo. E todos somos aquilo que mais alimentarem em nós. 
A velha questão de sempre: reciprocidade.
E a lógica do retorno. Só isso.
E é isso mesmo, Maria.

A grande diferença

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A meiguice



As pessoas passam metade da vida a maltratar-se umas às outras, por medo e necessidade de afirmação. É uma actividade triste e profundamente inútil. Já não tenho vergonha de ser meiga; foi uma das coisas que me levaste quando morreste.

Inês Pedrosa, Nas Tuas Mãos.

To be.