terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Raiz do Orvalho

















Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que não se morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura a raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco as mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as coisas de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno

Mia Couto

Quem espera...


Pormenor da obra 'Los Amantes' de Teruel

É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...
 
Antoine de Saint-Exupery, O Principezinho

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Smile

smile
though your heart is aching
smile
even though it's breaking
when there are clouds
in the sky,
you'll get by
if you smile
through your fear and sorrow
smile
and maybe tomorrow
you'll see the sun
come shining through
for you

light up your face with gladness
hide every trace of sadness
although a tear
may be ever so near
that's the time
you must keep on trying
smile
what's the use of crying?
you'll find that life
is still worth-while
if you just smile
smile

light up your face with gladness
hide every trace of sadness
although a tear
may be ever so near
that's the time
you must keep on trying
smile,
what's the use of crying?
you'll find that life
is still worth-while
if you just smile
keep on smiling
oh yeah
smile
never, never, never stop smile
smile

Os nossos olhos já não são peixes verdes

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

Uma questão de carácter.



A man's true character comes out
when he's drunk.

Charlie Chaplin


Dias feios.


Porque as segundas-feiras são, invariavelmente, dias feios.
Mesmo as repletas de sol. 


Arrependimentos

imagem de Damian Hovhannisyan
Poucos chegamos ao fim contentes por termos respondido a todos os acenos da vida. Levamos connosco para a sepultura o pesadelo dos gestos que não praticámos, dos sentimentos a que não demos expressão. A consciência de que a grande parte das oportunidades foram desperdiçadas e a íntima certeza de que tê-las aproveitado teria sido o melhor da nossa existência. 

Miguel Torga

domingo, 23 de janeiro de 2011

That's all there is.

Anita Ekberg e Marcello Mastroianni, La Dolce Vita, 1960

There is no end. There is no beginning.
There is only the passion of life.

Federico Fellini

O mais importante.

O Rosto, de Ingmar Bergman, 1958

sábado, 22 de janeiro de 2011

A singularidade do habitual.

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

Bertold Brecht

To believe or not.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A banda sonora da minha noite...

Perguntas


As perguntas verdadeiramente importantes são as que uma criança pode formular - e apenas essas. Só as perguntas mais ingénuas são realmente perguntas importantes. São as interrogações para as quais não há resposta. Uma pergunta para a qual não há resposta é um obstáculo para lá do qual não se pode passar. Ou, por outras palavras: são precisamente as perguntas para as quais não há resposta que marcam os limites das possibilidades humanas e traçam as fronteiras da nossa existência.

Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser 

Detalhes. Preciosos.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A banda sonora da minha noite...



Are you lonesome tonight,
Do you miss me tonight?
Are you sorry we drifted apart?
Does your memory stray to a brighter sunny day
When I kissed you and called you sweetheart?
Do the chairs in your parlor seem empty and bare?
Do you gaze at your doorstep and picture me there?
Is your heart filled with pain, shall I come back again?
Tell me dear, are you lonesome tonight?


Venice

imagem de National Geographic
 
This was Venice, the flattering and suspect beauty this city, half fairy tale and half tourist trap, in whose insalubrious air the arts once rankly and voluptuously blossomed, where composers have been inspired to lulling tones of somniferous eroticism.

Thomas Mann

Essencialidades.


Uma mulher precisa de apenas duas coisas na vida: um vestido preto e um homem que a ame.

Coco Chanel

Legenda

imagem de ddiarte


O outono das nossas vidas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Amei

imagem de Konrad Zagloba
 
 Amei palavras gastas que ninguém
ousava. Encantou-me a rima flor
amor,
a mais antiga das difíceis do mundo.

Amei a verdade jazente no fundo,
quase um sonho olvidado, que a convulsão
redescobre amiga. Com medo o coração
dela se aproxima, e não mais se farta.

Amei-te a ti que me escutas, e a minha carta
boa deixada ao fim deste meu jogo.

Umberto Saba


Um motivo de força maior.

imagem encontrada aqui
Daquela mesma varanda, tempos mais tarde, namorei uma rapariga de nome Deolinda, mais velha do que eu três ou quatro anos, que morava num prédio de uma rua paralela, a Travessa do Calado, cujas traseiras davam para as da minha casa. Há que esclarecer que namoro, o que então se chamava namoro, dos de requerimento formal e promessas mais ou menos para durar («A menina quer namorar comigo?», «Pois sim, se são boas as suas intenções»), nunca o chegou a ser. Olhávamo-nos muito, fazíamos sinais, conversávamos de varanda para varanda por cima dos pátios intermédios e das cordas de roupa, mas nada de mais avançado em matéria de compromissos. Tímido, acanhado, como me estava no carácter, fui algumas vezes a casa dela (vivia, creio recordar, com uns avós, mas, ao mesmo tempo, decidido a tudo ou ao que calhasse. Um tudo que daria em nada. Ela era muito bonita, de rostinho redondo, mas, para meu desprazer, tinha os dentes estragados, e, além do mais, devia pensar que eu era demasiado jovem para empenhar comigo os seus sentimentos. Divertia-se um pouco à falta de pretendente idóneo, mas, ou muito enganado ando desde então, tinha pena de que a diferença de idades se notasse tanto. Em certa altura desisti da empresa. Ela tinha o apelido de Bacalhau, e eu, pelos vistos já sensível aos sons e aos sentidos das palavras, não queria que mulher minha fosse pela vida carregando com o nome de Deolinda Bacalhau Saramago.

José Saramago, As pequenas memórias