quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

(Re)Nascimentos

imagem de Anne Dorel
Le véritable lieu de naissance est celui où l'on a porté pour la première fois un coup d'oeil intelligent sur soi-même: mes premières patries ont été des livres.

Marguerite Yourcenar

Vícios privados # 1

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

my body your body

i like my body when it is with your
body. it is so quite new a thing.
muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows. i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smooth ness and which i will
again and again and again
kiss, i like kissing this and that of you,
i like, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh. . . . and eyes big love-crumbs,

and possibly i like the thrill

of under me you so quite new

e.e. cummings

Legenda

imagem de National Geographic
Uma mulher vestida de sonhos.

A insustentável leveza. Da mulher.

Há três espécies de mulheres neste mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja e a mulher que se ama. A beleza, o espírito, a graça, os dotes da alma e do corpo geram a admiração. Certas formas, certo ar voluptuoso, criam o desejo. O que produz o amor, não se sabe; é tudo isto às vezes; é mais do que isto, não é nada disto. Não sei o que é; mas sei que se pode admirar uma mulher sem a desejar, que se pode desejar sem a amar. O amor não está definido, nem o pode ser nunca. O amor verdadeiro... 

Almeida Garrett

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...

















Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro

Estatística.

Roses

 
You love the roses - so do I. I wish
The sky would rain down roses, as they rain
From off the shaken bush. Why will it not?
Then all the valley would be pink and white
And soft to tread on. They would fall as light
As feathers, smelling sweet; and it would be
Like sleeping and like waking, all at once!

George Eliot

Pedaço de vida # 2


Esforço-me por relativizar, por esquecer, por assumir a sua falta de importância. Na maioria das vezes, é mais forte que eu. Muito mais forte. Avassalador.

domingo, 9 de janeiro de 2011

For a life.



For attractive lips, speak words of kindness.
For lovely eyes, seek out the good in people.
For a slim figure, share your food with the hungry.
For beautiful hair, let a child run their fingers through it once a day.
For poise, walk with the knowledge that you never walk alone.
People, more than things, have to be restored, renewed, revived, reclaimed, and redeemed. Remember, if you ever need a helping hand, you will find one at the end of each of your arms.
As you grow older, you will discover that you have two hands, one for helping yourself and the other for helping others.

Audrey Hepburn

10 anos

Há 10 anos atrás concluí a Licenciatura em Direito e, entretanto, o Mestrado em Direito da Empresa e dos Negócios. Integrei uma Sociedade de Advogados como estagiária e por lá fiquei, até hoje. Mudei de casa 4 vezes. Vivi numa casa velha, com paredes grossas e tectos de estuque, e num T0, milagrosamente convertido em T1. Fui a Paris, Londres, Amesterdão, Salamanca, Atenas, Santorini, Bordéus, Biarritz. Viajei incessantemente por Portugal. Não fiz sky, bungeejumping nem escalada. Li mais de 200 livros e melhorei o meu francês. Criei um blog.
Apaixonei-me várias vezes. Por muitas coisas e por algumas pessoas. Desiludi-me mais do que o que queria. Fiz alguns amigos para a vida. Perdi uns poucos. Para sempre. Tive um processo em tribunal e ganhei-o, ganharam-no por mim. Comprei 2 carros. Não consegui comprar aquilo que mais desejava. Fiz muitas asneiras das quais não me arrependo e fiz uma que não voltaria a fazer. Alterei o meu rumo profissional, definido desde miúda, de forma definitiva. Ainda não aprendi a amar-me nem a valorizar-me como deve ser. Tive um filho e tenho a minha própria família. Não tive um cão, nem um gato, nem qualquer outro animal doméstico. Perdi o meu avô. Ganhei uma nova Irmã de coração. Cometi o maior erro da minha vida e sofri demasiado com ele. Estive muito, muito doente e fiquei boa. Colhi flores plantadas pelo meu marido. Retirei do jardim a palmeira que plantámos há mais de 15 anos. Chorei muito e ri ainda mais. Engordei 20 kg e emagreci os mesmos 20 kg. Saí de casa dos meus pais, mas continua a ser a minha casa. Fiz mais de 300.000 km de carro. Quase emigrei. Aprendi a cozinhar. Aprendi a gerir o meu próprio dinheiro. Aprendi a merecê-lo. Deixei morrer os morangueiros do quintal e consegui manter a orquídea em flor durante dois anos. Percebi o que é realmente importante.
Experimentei muitas coisas só para poder dizer ao meu filho como é. Perdi a cabeça vezes sem conta. Menti. Enganei. Fui inocente. Fui crédula. Continuo a sê-lo. Vi a minha família desmoronar-se de dor e eu com ela. Percebi que há amigos que são muito mais sólidos e importantes que alguma família. Enganei-me. Iludi-me. Cresci muito. Quase morri. Dei-me de alma e coração e fui roubada. Nunca me fizeram mal. Despedi-me de gente até nunca mais. Realizei muitos dos meus sonhos. Passei a sentir em função de outro ser. Comi sushi. Passei a adorar sushi. Continuo a gostar de teatro e de cinema. Adoro ler, muito, sempre. Encontrei o homem da minha vida. E passei a saber o que é viver com o coração fora do corpo. Foram assim os últimos 10 anos da minha vida. Venham mais 10.*

*inspirada aqui.

Saudade



Que absurdo as coisas durarem mais do que as pessoas...
... e, sobretudo, mais que os sentimentos. Ou que alguns sentimentos.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Porque a noite pede música *



*expressão lida aqui

Ideias

Melancolia, de Edward Munch
«E disse-me hoje que não tenho ideias. Tenho opiniões que são ideias à procura de um homem que morra por elas. Infelizmente é verdade. Infelizmente pois de qualquer modo ele bem sabe que agonizo a minha ausência de convicções como se elas existissem. O que é a minha melancolia senão uma convivência absurda com o nada que me cerca por todos os lados?

Eu tenho ideias não as tendo. Passo a vida a dar voltas às ideias dos outros para concluir que não são ideias que valha a pena ter. À parte um ou outro homem ninguém tem senão ideias que são de toda a gente como o ar que se respira. Eles não as têm e pensam que têm. Eu não as tenho, sei que não as tenho, sofro por não as ter e luto para tê-las, pois ter uma ideia do mundo (a Ideia do Mundo) é a única coisa que me interessa na vida.»

Eduardo Lourenço

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Instruções para chorar


Prescindindo dos motivos, vamos ater-nos à maneira correcta de chorar, ou seja, um pranto que não ingresse no escândalo, nem insulte o sorriso com paralela e torpe semelhança. Consiste o pranto médio ou corrente numa contracção geral do rosto e num som espasmódico acompanhado de lágrimas e ranho, este último no final, já que o pranto termina no momento em que uma pessoa se assoa energicamente.
Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto lhe for impossível por haver contraído o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães onde nunca ninguém entra.
Quando o pranto começar, cobrirá com decoro o rosto, usando para tal ambas as mãos com as palmas viradas para dentro. As crianças chorarão com a manga do bibe a tapar a cara, e de preferência a um canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.

Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas

This broken dream

imagem de Mindcage

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ternura




















Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira

Without tenderness, a man is uninteresting.

Marlene Dietrich

Ao sabor das horas

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Cantiga de embalar


Twinkle, twinkle, little star,
How I wonder what you are.