domingo, 13 de novembro de 2011

Poema à Mãe
















No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade

[Porque a Senhora minha Avó hoje está de parabéns. E as avós são Mães duas vezes. Parabéns, minha querida.]

2 comentários:

Helena Oneto disse...

Lindo, lindo, lindo!
Bem haja Maria de Deus pour este poema.
Bem haja

[MDB] Maria de Deus Botelho disse...

Helena,
Temos ambas que agradecer ao génio extraordinário de Eugénio de Andrade, que nos deixou maravilhosos e lindos poemas que transmitem aquilo que as nossas palavras não conseguem.
Um abraço!